
Se tivesse dúvidas de que os portugueses não confiam na nossa justiça, elas ficavam desfeitas com o desenrolar do processo complicado e delicado, que envolve o pretenso crime de sequestro e a condenação de um "pai-militar", a seis anos de prisão.
A comunicação social teve uma influência decisiva neste "acordar" generalizado das pessoas, ao dramatizar um caso, igual a tantos outros, que decorrem por este país fora (se exceptuarmos a pena do pai adoptivo, bastante exagerada...).
Todos nós sabemos que as razões do coração, por vezes afastam-nos da realidade, tiram-nos o discernimento e a capacidade de analisar os factos com a frieza necessária.
Provavelmente as pessoas envolvidas no processo já devem ter parado para pensar. Além de reviverem alguns dos seus actos, infelizes e repletos de erros (sim, este processo está cheio de erros, desde a forma como a mãe biológica entregou a filha, ao modo como os pais adoptivos e o pai biológico têm respondido aos inúmeros obstáculos que foram surgindo pela frente, nos últimos anos), devem ter consciência que a única pessoa que vai sair a perder com isto tudo, é uma menina com apenas cinco anos de idade, escondida algures, em parte incerta.
Há questões demasiado pertinentes que não têm sido trazidas para a praça pública, de uma forma clara. Por exemplo: qual era a ocupação da cidadã brasileira quando esteve entre nós; se a sua gravidez foi provocada por uma relação ocasional; se a mãe vendeu a criança aos pais adoptivos; se o pai biológico só accionou este processo, por causa do dinheiro que poderá receber de indeminização; desde quando é que o pai biológico quis ver a criança; porque razão os pais adoptivos não o permitiram, etc.
Este caso fez com que eu percebesse um pouco melhor como funciona a nossa justiça. Não acho que funcione mal, é sim, muito pouco flexível.
Os juizes fingem-se autómatos, como se fossem desprovidos de quaisquer sentimentos, restringindo-se apenas à lei. É preciso que os juizes se lembrem que além da sua função (demasiado séria e importante), também são seres humanos.
Quando isso acontecer, há casos que deixam de ser casos...