sexta-feira, setembro 08, 2006

A Revolta dos Marinheiros


Há setenta anos o nosso Tejo foi palco da célebre “Revolta dos Marinheiros”, que colocou as duas margens do rio em polvorosa, pelos muitos tiros disparados e pela agitação nas águas, provocada pela fuga dos militares revoltosos. Na imagem podem ver o estado em que ficou um dos navios ocupados.
Embora o texto que se segue, seja um pouco extenso, achei que era importante saberem o que realmente aconteceu...

«A Revolta dos Marinheiros, de 8 de Setembro de 1936, foi uma das primeiras grandes agitações sociais promovidas com o apoio directo do Partido Comunista Português, através da ORA (Organização Revolucionária da Armada), a sua célula no interior da Marinha de Guerra Portuguesa, que começara a ter alguma força junto dos marinheiros, ao ponto de assustar os comandos da nossa Armada.
Esta revolta teve algumas singularidades, a maior das quais, ter sido desencadeada apenas por marinheiros e grumetes, com idades entre os dezoito e os vinte e dois anos.
As comemorações do décimo aniversário da revolução do 28 de Maio de 1926, que tiveram o ponto alto na Praça do Comércio que se encheu de gente, fruto da presença de uma grande massa de representantes dos sindicatos e trabalhadores obrigados a comparecer, transportados em camionetas fretadas pelos patrões, com a ameaça de desemprego para todos aqueles que se recusassem a participar na festa, marcariam o início da revolta.
As intimidações aos operários para engrandecerem a festa do Estado Novo também chegaram ao navio que prestava honras militares às altas individualidades do poder. A sua guarnição recebera ordens superiores para levantar os braços em frente do Cais das Colunas e soltar urras de aclamação. Mas os marinheiros fizeram ouvidos de mercador e quando passaram junto ao cais não fizeram qualquer gesto, permanecendo apenas em sentido. Essa atitude louvável fez com que o comando, e até a própria PIDE, começassem a ter alguns marinheiros debaixo de olho.
Com o começo da Guerra Civil Espanhola, o NRP Afonso de Alburquerque partiu para o país vizinho, com a missão de escalar alguns portos a sul e recolher os portugueses radicados nessas paragens que quisessem regressar a Portugal.
Quando o navio chegou a um porto ocupado pelas forças governamentais, foram dadas ordens superiores, proibindo toda a guarnição de sair para terra.
Os problemas surgiriam, dias depois, quando atracaram noutro porto, sob o domínio das tropas de Franco e foram concedidas licenças.
As praças recusaram-se a sair, como protesto pela dualidade de critérios do comando, provocando mau estar a bordo. O comandante do navio ao constatar que parte da sua guarnição simpatizava com o governo da Frente Popular Espanhola, eleito democraticamente pelo povo, fez a respectiva denúncia ao poder central.
A denúncia foi tal que mal o navio entrou no Tejo, já a PIDE estava plantada no cais, à espera dos prevaricadores. Quase toda a guarnição sofreu penas disciplinares, embora a fatia maior coubesse a 17 dos marinheiros envolvidos, que foram imediatamente expulsos da Marinha, sem direito a qualquer defesa.
A atitude injusta e prepotente da chefia da marinha semeou no seio da classe de praças um ambiente de indignação e de revolta que os levou a planearem uma acção de luta armada, que ficaria conhecida para a história como a “Revolta de Setembro”.
O grande objectivo era ocupar os três navios fundeados no Tejo e sair à barra, fora do alcance das peças de artilharia, ameaçando disparar contra a Assembleia da República, exigindo a libertação dos camaradas que ainda se encontravam presos.
A revolta acabou por ser reprimida sem dó nem piedade pelas forças afectas ao Estado, a que nem a aviação faltou.
O plano de sabotagem abortou devido à traição de alguns elementos que fingiram estar ao lado dos revoltosos.
Nessa noite de 8 de Setembro de 1936, em que estiveram envolvidas 200 praças, resultaram: 5 marinheiros mortos nos confrontos; 92 julgados em tribunal militar; 82 condenados a penas entre os 2 e os 16 anos de prisão; 34 dos quais foram inaugurar o Campo do Tarrafal (5 pereceram aos maus tratos e ao clima agreste da Ilha de Santiago).
O governo levantou logo o boato de que os marinheiros eram uns traidores que queriam entregar os navios à vizinha Espanha.
A ditadura tremeu com este acto de coragem. A prova foi a repressão que se seguiu no interior da Armada portuguesa.
Como os fascistas não se poupavam a meios para se manterem no poder, escolheram os marinheiros mais incómodos para estrearem o presidio do Tarrafal que ficou conhecido internacionalmente como o “Campo da Morte Lenta”.»
In "Almada e a Resistência Antifascista", de Luís Alves Milheiro

16 comentários:

Alice C. disse...

Estamos sempre a aprender. Não fazia ideia da existência duma revolta deste género no Tejo.

Luis Eme disse...

Uma das nossas funções no "Casario", é repartir o que conhecemos, o que pensamos... e até, por vezes, o que sonhamos...

jcfrancisco disse...

Se puderem leiam um livro magnífico de Alexandre O´Neill chamado «Uma coisa em forma de assim» da «Presença». Tem uma crónica fabulosa sobre a revolta dos marinheiros. Foi através dessa revolta que o Alexandre O´Neill tomou cosnciência política sobre o que se passava no tempo do fascismo. Salvo erro chama-se «A mão que acenava» e tem a ver com uma ramona que leva alguém que acena a pedir ajuda.

Luis Eme disse...

Jorge de Sena, no seu livro de contos, "Os Grão-Capitães", também aborda esta revolta, onde relata a ferocidade sem limites das forças da autoridade, em que os próprios náufragos foram caçados à metralhadora.
Prometo ler esse livro do grande poeta O'Neill.

Minda disse...

Obrigada Luís por nos trazeres aqui informação como esta. Desconhecia de todo o que se passara por estas bandas e adorei ficar a conhecer estes acontecimentos. O Casario é, pois, também, uma escola de aprendizagem sobre a nossa história local e eu congratulo-me com isso. Parabéns.

Luis Eme disse...

Minda, o melhor da "blogoesfera" é esta facilidade de partilharmos o que sabemos e sentimos...

jcfrancisco disse...

O pior da blogoesfera é a possibilidade de um pacato cidadão ser insultado por um anónimo. Outro dia no «aspirinab.weblog.com.pt» o escritor Fernando Venâncio colocou um post com um texto meu que se referia a três escritores: Vitorino Nemésio, Cesário Verde e José Loureiro Botas. Pois um «irracional» que nem sequer sabe escrever colocou um comment a dizer «agora o Fernando trás (SIC) para aqui escritores pirosos». Levou logo com uma resposta à maneira: mandei-o lamber sabão...

Luis Eme disse...

Pois... pensava que as coisas eram um pouco mais pacatas na "blogoesfera". Que se respeitava mais a liberdade de expressão e de opinião.
Há quem pense que é um espaço para outras coisas, como o insulto gratuito ou a "sapiência parda". Paciência.

Cristina disse...

li agora o texto desta página e não posso deixar de dar os meus parabéns e e a nota de que fiquei muito sensibilizada por saber que há quem se interessa por estas matérias. Foi de facto um grande momento histórico e eu tenho a honra de ser neta de um dos marinheiros que integraram a revolta - José Santos, que hoje já não está entre nós. Para ele, onde estiver, as minhas saudades. Cristina

Cátia Serôdio disse...

Fiquei muito emocionada ao ler isto... o meu avô foi um dos marinheiros que foi condenado a 15 anos de prisão com apenas 18 anos de idade. Chamava-se Jaime Francisco e morreu muitos anos depois de ter saído do tarrafal de cancro no fígado. Conheço a história pelo que a minha avó conta, sei que ele falava muito da "frigideira"... e que nunca mais conseguiu ser uma pessoa "normal". Foi importante para mim ler estes pormenores da história da qual só conhecia o lado mais negro. Obrigada!

umdodois disse...

estava agora a reler uma entrevista feita em 74 a um dos marinheiros revoltosos que foi para o Tarrafal, pessoa que conheci e com quem falei algumas vezes.
"Quando vimos que o navio estava a ser muito atingido, içamos um lençol branco, por não termos bandeira, para darmos o sinal de que já estávamos rendidos. Eles não ligaram nenhuma e fizeram sempre fogo.
A seguir a nós largou da bóia contratorpedeiro Dão, que tinha o nome lá da terra do bruto. Mas o Dão foi pouco atingido. Também teve que se render ao chegar a Belém."

na breve pesquisa que fiz encontrei uma grande disparidade na referência do número de mortos, pelo que aqui trancrevo o relato de quem viveu a ocorrência.
"‘Estavam vencidos. Já havia muitos mortos, mas outros morreriam no rio e. finalmente, outros no campo de concentração do Tarrafal.
— «Houve, disse-nos, uma data de mortos: 13 no nosso barco (NRP Afonso de Albuquerque). Muitos tinham a cabeça num lado, as pernas noutro e o resto do corpo noutro, Foram cortados pelas rajadas das metralhadoras. Um 1 fogueiro foi cortado ao meio. Eu. quando ia falar com ele, lá em cima, encontrei-o caído no chão, cortado ao meio."

-Entrevista a António Gonçalves Saleiro, natural de Castelo do Neiva, Viana do Castelo, militar da armada portuguesa a tripular o NRP Afonso de Albuquerque, participante na revolta dos marinheiros, prisioneiro 16 anos no Campo do Tarrafal. publicada no jornal Monte do Castelo em 1975.


Vicente de Sá

Rui e Joana disse...

Caro Vicente de Sá
Obrigado por este comentário. Precisava da sua ajuda para situar melhor a citação que refere. Seria possível? Muito obrigado

Rui galiza

Rui e Joana disse...

Obrigado pelo post. Seria possível ajudar-me a situar melhor esta citação?

Luis Eme disse...

o "post" foi extraido do livro, "Almada e a Resistência Antifascista", editado em 2000, publicado em Almada, da minha autoria.

existem exemplares na Biblioteca Municipal de Almada.

Luis Eme disse...

obrigado pela colaboração, Vicente de Sá.

Luis Eme disse...

grato pelos vossos comentários, Cristina e Cátia.