terça-feira, setembro 19, 2006

A Praia da Margueira


No livro «Ao fim da memória» de Fernanda de Castro (Edição Círculo de Leitores) há uma curiosa referência à praia da Margueira. Assim: «Também me lembro da casa da minha bisavó, em Cacilhas, isto é, lembro-me de uma casa onde havia sempre muita gente, onde não me obrigavam a beber café com leite, onde ninguém me ralhava nem me punha de castigo. O resto, os pormenores, o tempo se encarregou de mos revelar; á medida que íamos crescendo, os meus irmãos e eu. Era uma casa pombalina, cor-de-rosa. Nem pequena nem enorme, tinha janelas de sacada com grades pintadas de verde e muitos vasos de sardinheiras nas varandas. A casa de jantar e a sala, ambas muito grandes, tinham pinturas a fresco nas paredes, cenas de caça na primeira, anjinhos, instrumentos musicais e grinaldas de flores na segunda. Os quartos, excepto o da minha bisavó e o da tia Emiliana, eram alcovas com portas de vidrinhos que davam para a sala e para a casa de jantar. O sótão, enorme, tinha um delicioso cheiro a pó e a bafio. Por uma grande escada de pedra chegávamos aos aposentos da tia Emiliana que se compunham de sala, quarto de dormir, quarto de vestir e lavagens. O quarto de dormir tinha uma janela que dava para o Tejo, podendo ver, quando estava deitada, o vaivém das fragatas no rio. No pátio lajeado da cozinha havia outra escada de pedra toda enredada numa trepadeira que dava umas flores esverdeadas chamadas «martírios».
A quinta que me parecia muito grande era, na realidade, pequena e bastante mal tratada por falta de água e por já não haver, nessa altura, hortelão nem jardineiro. Ainda assim tinha algumas árvores de fruto, pereiras e macieiras, alguns pés de uva moscatel, uma enorme amoreira e duas figueiras que davam uns figos pequenos mas muito doces. E havia ainda o mirante, a praia da Margueira e o poço onde – dizia a cozinheira Guilhermina – viviam lagartos e lacraus.
(texto de José do Carmo Francisco
e óleo de Alfredo Keil)

Nota: Existiam duas Praias da Margueira, a Nova e a Velha. A Nova fica mais ou menos no local onde hoje se encontra o Quartel dos Bombeiros de Cacilhas, a Velha, no começo da Avenida 25 de Abril. A fisionomia local era completamente diferente, como devem calcular, ainda sem as Avenidas e sem a Lisnave, que acabaria por conquistar bastante terreno ao Tejo.

8 comentários:

Alice C. disse...

Gostei do texto, em especial da parte em que a Fernanda de Castro diz que ninguém lhe batia ou ralhava naquela casa, nem a obrigavam a beber acfé com leite... as avós são sempre umas queridas.

Luis Eme disse...

Alice, estes textos servem também para nos confrontarmos com o que já não existe, dando-nos espaço para imaginarmos como seriam, por exemplo, as praias da Margueira.

Leo disse...

Olá Luís. Nunca me passou pela cabeça que existissem outrora praias na Margueira.É realmente delicioso deixar-nos aqui este livro de memórias sem excluir a tua nota explicativa.Adorava que as palavras pudessem recuar no tempo transformadas em imagens para que pudessemos disfrutar de uma visão melhor do que já não existe. Quiçá talvez um dia a tecnologia nos dê alguma máquina do tempo para que possamos recuar.
Criei um fotolog para recomeçar novamente o meu hoby de fotografias
também costumo fotografar o Ginjal, mas são daquelas ainda em papel, mas como sou exigente na qualidade (comigo claro)não as publico.Agora tenho uma digital e vou tentar dar o meu melhor, se quiseres visita-me em http://www.fotolog.com/leo_vieira56

Blackbird disse...

Belo texto...fez-me lembrar as histórias da minha avó que faleceu no principio deste ano. Contava ela que quando,(ela, o meu avô, e a minha mãe com 20 meses), emigraram do interior país para lisboa á procura de algo melhor, acabaram por se estabelecer em Cacilhas na casa onde morou até falecer. Conta que quase todos os domingos faziam a trouxa de piquenique e iam almoçar para debaixo das árvores que existiam perto da praia da margueira, onde agora é o abandonado estaleiro da Lisnave...fazia bem falta um espaço como este!
Abraço

Minda disse...

São estas memórias, felizmente escritas no papel, que nos identificam com um passado que nos ajudou a crescer e a ser aquilo que hoje somos no presente. Pena é que muitas destas lembranças acabem por ficar no rol do esquecimento, seja porque os seus guardadores delas têm vergonha (é verdade, há quem sinta desprezo pelo tempo humilde do antigamente), seja porque não tiveram oportunidade de as passar a outros... Obrigada Luís por descobrires estas preciosidades e no-las dar a conhecer. Ficamos todos mais ricos com essa informação. Adorei.

Luis Eme disse...

Como sabes Leo, as cidades estão sempre a mudar de visual. Cacilhas da primeira metade do século XX não tem nada a ver com a de hoje (infelizmente, mais decadente...).
Gostei da tua ideia da máquina do tempo, que com a evolução tecnológica actual, pode dentro de pouco tempo, deixar de ser apenas um sonho, provavelmente com milhares de anos.
Em relação ao teu blogue de imagens, já o visitei várias vezes, e gostei das tuas fotografias.

Luis Eme disse...

Obrigado pelo teu testemunho, "Blackbird". E tens razão, falta um espaço balnear e de diversão na Margueira. Talvez daqui a vinte anos as coisas mudem...

Luis Eme disse...

Minda, esta preciosidade é da autoria de Zé do Carmo Francisco, um poeta e cronista de grande qualidade. Eu limitei-me a escrever a nota explicativa.