quarta-feira, junho 28, 2006

Carlos Pinhão e a Gaivota com Óculos


Numa altura em que se confunde jornalismo com outra coisa qualquer, próxima do populismo, em que as notícias são misturadas com bandeiras, cachecóis e até com a Senhora de Fátima, acho importante falar de Carlos Pinhão, a minha principal referência do jornalismo português.
Comecei a ler as suas crónicas com apenas treze, catorze anos, nas páginas de "A Bola". Nessa época este jornal era considerado a "Biblia" dos jornais portugueses, pela grande qualidade jornalística e até literária.
Foi graças às suas palavras escritas - com a companhia de luxo de Vitor Santos, Alfredo Farinha, Carlos Miranda e Homero Serpa -, que dei comigo a sonhar, tornar-me um dia jornalista...
Ainda dava os primeiros passos na profissão quando nos cruzámos e pude perceber, que ele, além de excelente jornalista, era de uma generosidade e companheirismo, raros, pelo menos nesta profissão, onde se costuma ir até ao fim do mundo por causa de uma notícia, muitas vezes sem se olhar a meios...
O Carlos era também um grande contador de histórias. Escreveu vários livros, especialmente para o público mais jovem.
Um desses livros foi "Uma Gaivota com Óculos", que começa com o relato pitoresco de uma viagem a Almada, que passo a transcrever:
Era uma vez um sujeito que vivia em Lisboa e que foi convidado para ir a Almada contar histórias às crianças, Disse que sim, pegou nuns papéis em que tinha umas histórias escritas e, no Terreiro do Paço, apanhou um barco para Cacilhas.
Ia no barco a reler os papéis, a ver se decorava as histórias, quando o vento, inesperadamente, lhe arrancou as folhas das mãos. Ficou muito aflito a ver os papéis no ar.
Logo passou a aflição ao Sujeito dos Papéis, agora muito entusiasmado com aquele espectáculo imprevisto. As gaivotas devem ter pensado que se tratava de peixe, porque foram apanhar as folhas que estavam na água e deram-lhe valentes bicadas, enquanto mais acima, outras gaivotas disputavam outras folhas, puxando cada qual para seu lado. [...]

5 comentários:

Minda disse...

Concordo com o que dizes sobre o futebolês que anda por aí... e gostei deste início de história da viagem a Cacilhas do Carlos Pinhão.

jose do carmo francisco disse...

fiquei emocioando com o texto porque foi graças ao Carlos Pinhão que eu comecei a publicar poemas no Diário Popular em 1978 e em A BOLA em 1979. Tudo o que consegui depois é devedor desse gesto generoso de levar os meus poemas ao Jacinto Baptista do Diário Popular. Por isso outro dia em A BOLA fui entrevistado e recordei essa época de magia quando passei para o outro lado e me tornei autir em vez de leitor. Parabéns pelo texto!

António Cagica Rapaz disse...

Dediquei o meu livro "Líbero e Directo" a José Alves dos Santos e Carlos Pinhão, dois jornalistas de enorme dimensão e dois homens íntegros.
Carlos Pinhão escrevia com uma elegância e uma leveza inimitáveis, para além do seu humor fino, delicioso.
E era generoso, disponível, pronto a estender a mão, a dar oportunidade aos novos, verdadeiramente excepcional nesse capítulo.
Tenho por ele grande admiração, recordo-o com muita saudade.
Carlos Pinhão foi um homem de invulgar craveira, um modelo, uma perda irreparável.

Luis Eme disse...

As palavras de José do Carmo Francisco e de António Cagica Rapaz, deixaram-me feliz e levam-me a contar um episódio que expressa bem o bom caracter de Cralos Pinhão. Depois de eu ter comprado um dos livros que escreveu, editados pela "A Bola", num albarrabista, maisa exactamente "O Meu Barbeiro", onde o seu humor e ironia aparecem em grande destaque, telefonei-lhe para lhe dizer que tinha gostado bastante do livro, acrescentando que tinha ficado com uma grande curiosidade em ler "Entrevista sem Entrevistado". A conversa ficou por aqui. Dias depois tinha um embrulhinho na secretaria de redacção do "Record"... e era o livro em causa, com um bonito autógrafo do Carlos Pinhão, um jornalista e homem inesquecível para todos os que tiveram o prazer de o conhecer.

António Cagica Rapaz disse...

Seria, talvez, em 1958, e Carlos Pinhão mantinha a sua saborosa "Entrevista sem Entrevistado" a par do "Dicionário Desportivo". Neste último, ele dava definições com sabor a bola, no seu estilo inconfundível, e convidava os leitores a colaborarem.
Com a ousadia dos meus 14 anos, eu não hesitei e enviei várias definições que ele publicou, para meu orgulho e grande satisfação.
Foi o nosso primeiro encontro e, anos depois, haveríamos de relembrar este episódio. Já era assim, generoso e franco, o Carlos...