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quinta-feira, junho 25, 2026

Gente que não desiste de viver...


Não sei explicar muito bem porquê, mas conheço muito boa gente de Almada, que anda entre os oitenta e noventa anos (alguns passam...). Os meus filhos às vezes dizem mesmo, "só conheces velhos", com um ar provocador.

E é um bocado assim. Penso que isso tem muito a ver com o meu papel de historiador local. São as pessoas antigas que nos conseguem levar com mais facilidade ao tempo que já não existe...

E talvez também eu seja um "sujeito antigo", embora não se note tanto, fisicamente.

E foi assim que uma manhã destas, ao passar pela esplanada do "Café Central", encontrei o Joaquim a ler o jornal, atentamente, numa das suas mesas. Tirei-lhe um retrato e depois fui cumprimentá-lo, agradado por ver que ele continuava interessado em saber como vai o mundo, com as notícias de papel.

Disse-me que sim, com um sorriso, que ainda não tinha desistido do mundo, mesmo com as suas noventa e quatro primaveras e as mazelas normais de quem vive mais do que estava à espera...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


segunda-feira, março 27, 2023

A Descoberta de Um Conto do Romeu de 1951...


Não fazia ideia que o Romeu Correia tinha participado numa pequena antologia de contos (com Fernando Namora, Antunes da Silva, Alberto Pimentel), no já longínquo ano de 1951, da Colecção Horizonte. É também oferecida juntamente com os contos uma pequena litografia de Manuel Ribeiro de Pavia (ainda em bom estado, tal como o livro que não ultrapassa as sessenta páginas.

A história que ele conta tem como título, "A Tampa do Bule". Tudo indica que é autobiográfica, que aborda a separação do pai e da mãe, onde a figura central é o António, um menino de sete anos, cuja idade faz com que os adultos tentem que ele passe um pouco ao lado de todo aquele drama...

Mais uma bela surpresa, descoberta por aí...


quarta-feira, janeiro 19, 2022

Voltar...


A blogosfera acaba um pouco por ser como a vida, ou seja, "quem não aparece esquece"... E como somos "animais de hábitos", quantos mais dias estivermos afastados, mais difícil se torna o regresso.

Claro que quando temos coisas para dizer, é tudo mais fácil. 

Infelizmente não é o que acontece, nestes tempos em que reina o vazio, a incerteza, a dúvida, é difícil acrescentar alguma coisa. 

Até porque a realidade é muito diferente de tudo aquilo que nos é "vendido" pelos políticos, como se pode ver, através de mais uma campanha eleitoral...

Apesar de tudo, é preciso voltar...

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, fevereiro 10, 2021

Uma Cidade Igual a Todas as Outras...


Almada é uma Cidade, igual a tantas outras,  que tenta resistir, que finge estar viva.

A maior parte das pessoas estão fechadas em casa. Algumas, poucas, têm de sair de casa para fazer as compras indispensáveis. Circulam entre a desconfiança e o medo (os "imortais" não contam, que tanto podem ser meia-dúzia de adolescentes ou meia-dúzia de homens de meia-idade, que não sobrevivem sem os copos de todos os dias e inventam "tabernas" onde é possível...).

Almada é apenas uma Cidade igual a todas as outras deste nosso país.

(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, janeiro 01, 2019

A Minha Principal Tertúlia Gastronómica...

A minha principal tertúlia gastronómica tem como cenário o Restaurante Olivença, que fica próximo do Mercado de Almada e acabou por ser baptizada pela "Tertúlia do Bacalhau com Grão". Este nome deve-se ao facto dos nossos encontros "comensais" terem lugar à segunda-feira, dia em que é confeccionado o melhor bacalhau com grão de Almada e arredores.

Esta tertúlia existe há mais de meia-dúzia de anos e é sobretudo um espaço de amizade e de convívio e teve como principal mentor Orlando Laranjeiro. No início éramos quatro, o Orlando, o Xico, o Carlos e eu. Depois foram aparecendo novos amigos (Carlos II, Carlos III, Viriato, Jaiminho, Mário e Luís), que se integraram com facilidade no espírito da coisa. 

Embora o Carlos I, goste de dizer com ironia que na nossa tertúlia não se "diz mal de ninguém", o que salta à vista de qualquer pessoa mais atenta, é a amizade reinante entre todos, que tanto nos permite contarmos uma anedota picante, como falar da história de Almada, da realidade que nos cerca - quer a nível local, nacional e internacional, ou, não menos importante, falarmos das pessoas e das Colectividades de que gostamos. 

Infelizmente este último trimestre não tem sido nada agradável. Momentaneamente vimo-nos privados da companhia do Orlando e do Carlos I, por problemas de saúde. Para piorar as coisas, o nosso Carlos III partiu neste final de ano, sem ter tempo para se despedir dos amigos.

Apesar destes "golpes traiçoeiros", na próxima segunda-feira, lá estaremos. Como de costume falaremos de tudo o que nos apetecer, até da ausência dos nossos queridos amigos, com a cumplicidade de um outro Carlos, que gere a nossa "Casa de Pasto" e sempre nos tratou como uns "lordes"...

(Fotografia do Carlos da "Olivença")

sexta-feira, setembro 28, 2018

O Portugal Manso...

As povos são que são. Nós portugueses, somos seguramente, pouco dados a aventuras e sobressaltos. E tenho muita dificuldade em culpar o Salazar por isso.

Normalmente gostamos do conforto, preferimos sempre não sermos incomodados. Acreditamos que há sempre alguém que faz barulho e luta por nós na rua.

Gritamos muito, mas é em casa e nos cafés, no convívio com os amigos. E agora também fazemos "revoluções" nas redes sociais. 

Quando chega a hora de agir, tentamos sempre escapar. Somos capazes de inventar mil desculpas para não termos de fazer alguma coisa, para não lutarmos pela mudança.

Embora tenha falado na primeira pessoa do plural, felizmente não faço parte do Portugal destes portugueses. 

Talvez a culpa seja do "sangue gitano", que ainda corria nas veias do meu pai...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, abril 17, 2017

A Esperteza Versus a Inteligência

Não penso, sei,  que a esperteza faz mais "estragos" nas pessoas inteligentes, que a inteligência nos "chico-espertos".

E isso acontece porque a esperteza surge quase sempre embrulhada em qualquer coisa, e está sempre decidida a tomar os inteligentes por parvos...

Já a inteligência costuma subestimar os "chico-espertos", esquece-se de que eles são capazes de ir até ao fim do mundo...

Isto não é "chinês", é apenas uma contratação de quem cai vezes demais nas esparrelas dos "chico-espertos"...

(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, março 27, 2017

O Melhor do Teatro...


Enquanto escritor, o melhor que o Teatro me oferece é a possibilidade de escrever sobre a vida, de uma forma bem mais simples e directa, que qualquer outro estilo ou técnica literária.

Quando escrevo não penso numa, mas sim em várias pessoas. São elas que acabam por dar vida às personagens e que um dia poderão ser gente nos palcos...

E isso é o melhor que pode acontecer a quem escreve teatro, ver os "bonecos" que desenhámos com palavras ganharem um rosto, um corpo, serem gente e transformarem o palco numa festa.

domingo, outubro 30, 2016

Ainda Existem Flores no Jardim


Ontem à noite fui assistir à peça, "Ainda Existem Flores no Jardim", no Salão de Festas da Incrível Almadense, encenada e produzida pelo Cénico Incrível Almadense. E posso desde já acrescentar que foi uma bela surpresa, mesmo tratando-se de um monólogo.

Mara Martins, a Rosa, tem uma interpretação de grande qualidade. 

Conseguiu comunicar durante mais de uma hora (a peça não teve qualquer intervalo) com o público, sempre em movimento e sempre em diálogo com ela própria e com as figuras imaginárias que o autor criou, desde o marido, o desaparecido António (cabide de pé alto...) aos funcionários invisíveis do lar ou ainda ao Agostinho, a sua "tábua de salvação", ou a "última flor do jardim".

Ainda por cima se trata de um "assunto" tão actual... Rosa tinha sido abandonada pelos filhos num lar, que tinha os dias contados, o que lhe alimentara a esperança de um deles a vir buscar para voltar a "viver"... Quando já estava a baixar os braços e a enfrentar a realidade, resolveu ler a carta fechada que recebera logo no inicio da peça, mas apenas para ler no fim. Era a carta de um "anjo" ou de uma "flor" (sim há flores masculinas, o cravo é uma delas...), que a iria levar do lugar onde normalmente não se passa nada e apenas se espera a viagem final.

(Fotografia de Luís Eme)

terça-feira, abril 12, 2016

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Passamos a Vida a Desiludir os Outros...


Já não acho, tenho a certeza.  Passamos a vida a desiludir os outros, quase sempre involuntariamente.

Apenas por que não somos o que esperam de nós. Aliás, o que querem que nós sejamos.

E nós homens ainda somos mais tramados. Apesar das aparências, somos mais difíceis de domar que qualquer cãozito. Isso também explica o porquê de se verem por aí tantas mulheres atreladas a bichinhos de estimação, quase sempre pouco ferozes.

Mas há ainda outra coisa que me irrita, só somos teimosos e mal educados com quem podemos ser (os nossos subordinados...). Neste país ainda se pratica (muito...) a vénia para os "chefes" de qualquer coisa...

Palavra de quem trabalha "sem amo" e sem "servos" (deve ser por isso que sou cada vez mais libertário...).

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Um Homem Perdido na Imensidão do Tejo


Podia ser um poema, mas não. 

É apenas a legenda de uma fotografia, tirada ontem, ao fim da tarde no Ginjal.

Sei que o domingo sempre foi um dia terrível para quem vive sozinho, mesmo que hoje já seja um dia tão familiar como noutros tempos.

É por isso que na "Floresta do Ginjal" se organizam matinés dançantes aos domingos à tarde, para namoriscar, reviver o passado e tentar apagar a solidão, que é quase como o frio, agarra-se mais à pele no Inverno...

quarta-feira, outubro 29, 2014

Aprendemos Sempre, Mesmo sem nos Apercebermos...


A vida gira todos os dias, e não é apenas para fazer a vontade ao Sol.

Há quem ache que a partir de certa idade já não aprende mais nada (ou pior ainda, não queira aprender...), mas a vida não lhe dá tréguas e desafia-o, muitas vezes mal se levanta.

Por isso é que é sempre melhor querermos aprender, não termos medo do que nos espera lá fora, na "vidinha"...

segunda-feira, julho 01, 2013

Fonte da Telha


Acabei de ler o romance, "Fonte da Telha", escrito em 1949, por Alexandre Cabral.

É uma obra que se  baseia na corrente neo-realista, tão em voga nos anos quarenta e cinquenta do século passado.

Li-o sobretudo pela curiosidade que me despertou, quando o encontrei na Biblioteca da Incrível Almadense, pela proximidade geográfica.

Embora não seja um livro de excepção, lê-se bem. Relata a vida difícil e incerta dos pescadores da aldeia da Fonte da Telha, especialmente no Inverno, em que   o mau tempo não permitia a ida ao mar e em que o peixe escasseava...

terça-feira, abril 23, 2013

«O que seria de mim, sem os Livros?»


Perguntaram-me e eu respondo:

Bem, se não fosse um "maluquinho" pelos livros, de certeza que teria uma casa mais arrumada e vazia (há livros por toda a parte, só a cozinha é que escapa...).

Olhando a questão por outro prisma, seria sem qualquer dúvida, um individuo mais imbecil, mais ignorante e menos sonhador.

E claro, se não fossem os livros não teria escrito a dúzia de obras que se repartem pela ficção, pela poesia e pelo ensaio.

E agora vou sair de casa e fazer a minha boa acção do dia: distribuir dez livros pelas pessoas que se cruzarem comigo que tenham "cara de leitores" (não sei muito bem o que é isso, mas deve ser parecido com uma cara simpática e sonhadora...)

Nota: Tenho uma surpresa para os leitores dos meus blogues em: "A Minha Carroça de Livros". Se vos apetecer, passem por lá...

O óleo é de Almeida Junior.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Olhar para Dentro de Nós


Fez-me confusão logo pela manhã, ver que todas as pessoas com quem me cruzei em paragens (metro e autocarros...), olhavam para sitio nenhum, como se estivessem num estado de hipnose, presas aos dramas do seu dia a dia.

Provavelmente ainda estavam a pensar nas malfadadas listas do IRS, divulgadas em praticamente todos os jornais e revistas nas bancas, e na televisão, claro, que lhes iam roubar ainda mais "pão"...

O óleo é de Steven Graber.

segunda-feira, dezembro 31, 2012

Que 2013 Seja Melhor do que Esperamos


Não me lembro de estarmos quase a entrar num ano novo, com as expectativas tão baixas.

Os desejos que fazemos aos amigos e conhecidos, quase que se ficam apenas pela saúde e alegria, esquecidos que podem jogar no "euromilhões".

Queremos acreditar que com saúde e alegria, é possível vencer todas as adversidades, que nos são impostas por gente, que pouco ou nada sabe de nós.

Por tudo isto, era bom que 2013 fosse um ano melhor do que esperamos...

A foto é de Dorothea Lange.

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Histórias de Vergonha e Abandono


Os idosos continuam a ser as principais vitimas dos burlões e ladrões, especialmente na semana em que recebem as suas reformas.

A maioria nem sequer conta aos filhos o que lhes aconteceu, por vergonha...

Se as pessoas não se sentissem tão abandonadas neste país que não é para velhos, inclusive pelas próprias famílias, não dariam tanta conversa às pessoas que se fingem sempre simpáticas e agradáveis, numa primeira abordagem...

terça-feira, dezembro 18, 2012

Não Fui, Não vou à Missa


Se tivesse alguma dúvida, em ir ou não à missa, perdia todas as que tivesse ao ouvir aquele "beato Salu", deliciado com o Natal cheio de pobres e desta caridadezinha (falo disso no "largo"...) que lhes enche o "coração". 

Provavelmente é um dos muitos que enchem o confessionário de histórias para receber o perdão desejado, pois segunda feira começa uma nova semana com novos pecados, porque deus lá estará à sua espera, no dia de conversar a sós com o padre, naquele cubiculo, onde até se pode falar da cobiça pela vizinha, mais uma vez, coisa que se resolve com dois ou três "pais nossos" ou "avé marias"...

A superioridade que saltava do seu corpo era tanta em relação a nós (talvez herejes ou pior...), que devia estar convencido que já tinha um banco no céu, aliás um sofá, que tinha muito mais a ver com ele.

Não, não fui, nem vou à missa. Nem sou do clube destes "cristãos". Sou pela solidariedade e não pela caridade.

E continuo satisfeito por não querer ser mais nem menos que ninguém...