sexta-feira, julho 07, 2006

Passeio Nostálgico no Ginjal com a Bola nas Mãos


A minha última crónica obriga-me a fazer uma pequena reflexão sobre a importância do futebol no nosso país e no mundo.
Gosto muito deste desporto, que além de ser extremamente fascinante, foi muito bem idealizado. Penso que esta opinião é partilhada por todos aqueles que tiveram a oportunidade de correr atrás de uma bola em qualquer campo baldio, com o objectivo de a chutar para as balizas improvisadas, atrás da vitória. Eram jogos deliciosos, disputados sem cronómetro e sem árbitros, no habitual "muda aos cinco acaba aos dez".
Tenho pena que a alienação e os muitos interesses económicos e sociais tenham retirado alguma da beleza inicial do futebol, mas esse foi o preço que tivemos que pagar pela sua modernidade e transformação em espectáculo de massas, que acabaria, naturalmente, por se revelar um excelente negócio, pelo menos para alguns.
Provavelmente esta é a parte mais negativa do futebol.
É por isso que é usada abusivamente por algumas vozes criticas (Pacheco Pereira é o porta estandarte...), incapazes de perceberem a sua importância junto de milhões de portugueses, eternos perdedores no dia a dia e cujas carências sociais e económicas os levam a viverem as vitórias dos outros como se fossem suas. Os êxitos dos clubes e da selecção são uma das poucas oportunidades que têm de sorrir e ter alguma esperança no futuro...
Isto acontece em todos os países onde os cidadãos são menorizados por quem governa. Infelizmente, esta continua a ser a prática governativa no nosso país.
Nã posso fugir a um lugar cada vez mais comum: culpar Salazar do nosso atraso e ignorância em relação aos outros países do velho continente. Mas ele é, sem sombra de dúvida, o grande culpado da falta de amor próprio e até de ambição pessoal dos nossos pais e avós, já que como estadista sempre tratou os portugueses como uns coitadinhos, como se tivessem qualquer atraso cognitivo.
Só que o nosso país já vive em democracia há mais de trinta e dois anos e as coisas não mudaram assim tanto...
É por isso que aponto o dedo a todos aqueles que já foram Poder e que nunca apostaram a sério na Educação e na Cultura dos portugueses. Pacheco Pereira também tem responsabilidades, embora normalmente fale como se nunca tivesse sido deputado ou exercesse cargos partidários com responsabilidade.
Todos nós sabemos que um povo sem cultura e educação é mais ignorante, mais maleável e mais embrutecido.
O grande culpado do nosso atraso não é o futebol, mas sim, todos aqueles que só se têm preocupado com os seus umbigos e com as suas contas bancárias desde a Revolução de Abril.
O país só vai mudar quando se tomarem medidas sérias para acabar com o populismo governamental, com o caciquismo autárquico, com o ensino oco que fabrica doutores que nem sequer sabem escrever correctamente português; com uma comunicação social subserviente e rasca - especialmente a televisão, entre outras coisas. Ou seja, quando houver gente séria e responsável a governar este lugar, cada vez menos paradiziaco, plantado à beira mar.
O futebol? Não tem qualquer culpa de ser um jogo bonito e fascinante...

4 comentários:

Clara A. disse...

Não gosto de futebol. Acho um bocado estúpido (e até bárbaro) o que os jogadores fazem para marcar e para evitar que a bola entre dentro da baliza.
Mas percebo a alegria dos portugueses, porque é tão raro sermos bons em qualquer coisa, que uma simples coisa, como um jogo, faz com que as pessoas se sintam vencedoras.

António Cagica Rapaz disse...

Concordo com a generalidade da análise, apenas lamento que esta onda de entusiasmo tenha sido cozinhada, fabricada, conduzida e aproveitada pela televisão.
Verdadeira espontaneidade aconteceu em 1966 quando o País foi seduzido e arrastado pelos jogadores que, com as suas exibições, nos fizeram vibrar.
Foi tudo genuíno, sem marketing pré-fabricado pelas máquinas de fazer dinheiro que controlam o futebol e os ingénuos adeptos.
Em 66, na fase de grupos, não apanhámos equipas fracas como Angola, Irão ou (mesmo) México. Foi logo, na estreia, a Hungria que era a mais forte de todas, segundo se dizia. Só não tinha um guarda-redes à altura. E, a seguir, foi o BRASIL. Na fase de grupos!!!
Ainda não havia os "cozinhados" de hoje.
Enfim, as coisas são o que são. E, apesar de ter a profunda convicção de que o futebol é uma mentira pegada, continuo a gostar do jogo.
Só mais uma coisa : nenhuma das vedetas que hoje fabricam em série é digno de atar as botas do EUSÉBIO...

Luis Eme disse...

Se analisarmos com seriedade as muitas reportagens e programas televisivos, temos razões mais que suficientes para nos sentirmos envergonhados.
O habitual jogo jogado (a maior parte das pessoas só tiveram acesso a meia dúzia de jogos, por causa do mercantilismo televisivo) foi substituído por um folclore nunca visto, em redor de comentaristas de meia tigela e de jornalistas patrioteiros, de cachecol e bandeira, cuja imaginação e esperteza até os levou a usar e abusar das senhoras de Caravaggio e de Fátima, entre outros videntes de meia tigela.
O próprio futebol jogado, proporcionou alguns dos piores jogos numa competição que deveria promover o futebol e não o cinismo e a contenção de bola, com a bola a rondar muito poucas vezes as balizas. A final é um bom exemplo de todo este Campeonato do Mundo.
Em 1966 tinha apenas quatro anos, pelo que não vivi esse Mundial, mas tenho a certeza que foi muito mais expontâneo e e bonito que a competição na Alemanha, como o António diz.
Nessa altura a televisão dava os primeiros passos, não era o negócio de milhões que é nos nossos dias...

Alice C. disse...

Não gosto de futebol.
Gosto menos ainda que o futebol continue a ser masculino (até as futebolistas têm os tiques dos homens...).
Quanto à análise, concordo com muitas coisas. Só num país sem amor próprio é que se faz de um jogo de futebol um jogo da vida.