segunda-feira, dezembro 11, 2006

A Arrábida é um Lugar Especial



A Serra da Arrábida é um lugar cuja beleza é única no nosso país.
Não digo isto apenas por estar encostada ao Oceano e ser um miradouro fabuloso; por possuir uma flora rara, curta e densa (que dificulta bastante a progressão, fora dos caminhos...); mas sim por guardar inúmeros segredos e mistérios, que fabricaram várias histórias curiosas ao longo dos anos e nos permitem dar passeios recheados de aventuras, pelos seus caminhos estreitos, que nos levam à descoberta de fendas, grutas, ruinas, enquanto descemos na direcção das suas pequenas praias rochosas, cuja água transparente e profunda, é mais fresca que o habitual.
O ar que se respira, também é mais forte, graças à feliz conjugação entre o Mar e a Serra...
É por isso que me faz muita confusão esta teimosia socrática em utilizar a cimenteira de Outão (que está ali a mais, desde sempre...) como central de co-incineração.
Como é óbvio, tenho de me juntar ao numeroso coro descontente e dizer: «Co-incineração em Outão, Não!»
Este texto está acompanhado de um bonito óleo do pintor naturalista João Vaz (1859 - 1931), natural de Setúbal, que tem o nome de "Forte de Outão", pintado no final do século XIX.

sábado, dezembro 09, 2006

Mar Alto na Costa de Caparica

O mar da Costa de Caparica tem-se excedido nos últimos dias, gerando o pânico nas zonas mais baixas e desprotegidas rente à praia (quase engolida pela fúria das ondas...).
Como já é hábito, S. João de Caparica é o primeiro alvo da linha de ataque traçada pelo Oceano, que consegue explorar muito bem as suas fragilidades.
Provavelmente para chamar a atenção da acção humana, muito mais devastadora e complexa que a sua revolta, quase natural, nesta época do ano...

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Vidas com e sem Poesia



A tendência de tentarmos decifrar os mistérios do mundo segundo os nossos pontos de vista é perfeitamente natural, o que não quer dizer que estejamos certos...
É bom perceber, por exemplo, que há quem viva de costas voltadas para o Tejo, e não sinta a sua falta para nada, tanto em Lisboa como em Almada.
Foi por isso que quando ouvi alguém dizer mal dos Açores, não fiquei chocado - embora tenha expressado a minha opinião.
Sinto que há pelo menos três permissas, para se gostar do Arquipélago: gostar do Mar; adorar os campos verdes e floridos; e sobretudo, ter alma de poeta...
Quando eu disse que adorava os Açores, e que nem sequer me importava de lá viver, a pessoa em causa arranjou outro argumento. Começou a dizer que se comia mal nas Ilhas... lembrei-me imediatamente de alguns excelentes restaurantes do Fayal, São Miguel e Terceira...
A única coisa que deixei escapar, foi que, podemos comer bem ou mal em qualquer parte do mundo, é apenas uma questão de escolha...
Desta vez abriu a boca apenas para engolir em seco, à espera que alguém mudasse de assunto...

terça-feira, dezembro 05, 2006

O Dragoeiro de Cacilhas

Quando rebuscava alguns papeis, descobri uma fotografia com história, datada da Primavera de 1997. Estou a falar do retrato do Dragoeiro de Cacilhas.
Esta árvore seria retirada algum tempo depois, da Rua António Feio, com destino ao Jardim Botânico da Cidade, na Casa da Cerca...
Infelizmente este cacto exótico - da família dos dragoeiros, originários das Canárias -, depois de uma longa permanência nas traseiras de alguns prédios de Cacilhas (segundo os entendidos, tinha mais de duzentos anos...), acabou por não se dar bem com os ares do Jardim Botânico e morreu, lentamente ...
Penso que o seu "esqueleto" (o tronco e os braços...) ainda se mantém no jardim, para quem quiser imaginar a grandeza desta árvore exótica, cuja beleza pode ser testemunhada através desta minha fotografia, tirada no lugar onde nasceu, cresceu e viveu, durante longos anos...

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Um Mundo Cheio de Barreiras e Obstáculos

Tenho alguma alergia aos dias mundiais, internacionais ou nacionais do que quer que seja, porque são sempre aproveitados por um número incontável de demagógicos e hipócritas, que adoram espreitar e falar para as câmaras e microfones. Prometem mil e uma coisa, no ano seguinte, fazem a mesma coisa... com o mesmo sorriso nos lábios e a mesma "falsa" boa vontade.
Vou abrir uma excepção e falar do dia dos deficientes, quase sempre tão mal tratados e amados no nosso país. Apesar de darem provas de serem uns grandes campeões (e não estou a falar apenas das suas proezas olímpicas), no dia a dia, tal é a força de vontade com que lutam diariamente contra todas as barreiras e obstáculos colocados em lugares chave das suas vidas.
São esquecidos e ignorados nas ruas, nos prédios, nas escolas, nos centros de saúde, nas repartições públicas, etc, como se não existissem, ou os seus lugares se confinassem às suas casas...
Almada, além de ter os passeios mais desnivelados e esburacados que conheço, é uma cidade cheia de obstáculos e perigos, para quem anda de cadeira de rodas.
É por isso que me apetece gritar: «Já chega! Basta de palavras vãs e sem sentido! Parem e olhem para todos os lados!»

sábado, dezembro 02, 2006

Dezembro Trouxe o Frio


Dezembro rasgou Novembro do calendário e trouxe o frio e a chuva... para não nos esquecermos que este mês não é só das luzes decoradas com estrelas, velas, anjos e árvores de Natal... é também do Inverno, que pode ser do nosso contentamento ou descontentamento...

quinta-feira, novembro 30, 2006

O Fascínio da Pesca


Não tenho dúvida que os pescadores são os melhores companheiros do Ginjal, pelo menos nestes tempos de abandono e de placas intimidatórias...
Nem sequer sei se existe muito peixe na nossa margem do Tejo. Existe sim o prazer em "dar banho à minhoca" (adoro esta expressão), dos pescadores de todas as idades, e às vezes algumas mulheres, também de diferentes idades, entretidos na pescaria e na contemplação das águas do rio que banha o Ginjal.
Houve uma altura que pensei em experimentar esta actividade, por a achar poética. Claro que se o fizesse, teria de levar um caderno ou bloco, misturado com os apetrechos de pesca, para registar aquelas coisas que surgem, de momento. Acabei por não experimentar...
Por falar em pesca e pescadores, lembrei-me de um cacilhense, que não passava sem as suas pescarias no Tejo, mas como não gostava de peixe, oferecia todo o seu pescado aos companheiros de pescaria ou à vizinhança. Falo de Jaime Feio, uma grande figura da cultura almadense, do século XX.

terça-feira, novembro 28, 2006

Avenida Sul do Tejo

Já falámos mais que uma vez, do sub-aproveitamento que se tem feito de toda a Margem Sul, especialmente do espaço entre Cacilhas e a Trafaria.
É por isso que achámos importante referir aqui a existência do opúsculo "Avenida Sul do Tejo, Cacilhas-Trafaria", publicado em 1933, da autoria de Agro Ferreira (1879-1943), um grande empreendedor e defensor do desenvolvimento da Outra Banda, que exerceu as funções de vereador no Município de Almada.
Nestas páginas Agro Ferreira diz com entusiasmo: [...] «Uma avenida que, partindo de Almada, fosse até à Trafaria, transformava magicamente a perspectiva inteira do porto. Dava, em pouco tempo, uma outra vida e uma outra animação ao rio. Modificava em meia dúzia de anos, e com todas as vantagens, a própria fisionomia da capital do País.[...]»
Mas vai mais longe: [...] «Só quem não tenha entrado a barra, a bordo dalgum transatlântico é que desconhece a impressão humilhante de ver desaproveitada a margem sul do Tejo, a "margem interdita". É uma vergonha, com franqueza!... [...]»
O único comentário que nos apraz registar é este: Passados setenta e três anos a vergonha continua...

segunda-feira, novembro 27, 2006

Os Poetas são Imortais



Mário Cesariny despediu-se ontem de nós,
mas a sua poesia e a sua arte

vão continuar presentes
durante longos anos...
porque os poetas são imortais...




A pintura que ilustra esta pequena homenagem a Mário Cesariny de Vasconcelos (1923 - 2006) é da sua autoria.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Poesia Amável


«Se não tivesse sido a esquadra americana, que fez esgotar a cerveja na cidade, eu não teria ido à outra banda beber um fino... Não nos teríamos encontrado, por conseguinte.
Mas, também, se o teu isqueiro não se tem avariado e a tua voz não fosse - até na adversidade! - manselinha (« - Por favor...» Nas comissuras dos lábios, tanto destino cruzado! « - Muito obrigado, Senhor...») sequer teria reparado em ti...
Qual é a explicação da tua voz? Herdaste-a de teus pais? De teus avós? De que Senhora Aónia és descendente?
« Poeta desempregado...» espalham para aí os teus. Mas se não fosse um poeta... quem te houvera de amar, ó minha feia? E empregado... como é que eu poderia, às quatro horas - numa quinta-feira - estar, digam-me lá, na outra banda?
Os marujos... e se eles eram cupidos... (crescidos, americanos, vestidos à marinheira...) que nos feriram com uma seta, teleguiada certeira...
.........................................................
Foram as manobras da NATO...
Foi um isqueiro empanado...
Foram as voltas do Mundo...
Foi uma loucura (dizem os amigos)
... que engendrou - cegamente - o nosso encontro em Cacilhas.
Coisa tão bela e absurda como o aparecimento do homem!
Este poema prosaico de José Fernandes Fafe, chama-se "Metafísica do Encontro" e faz parte do seu livro "Poesia Amável", que deu o título a este "post", a pensar também no José do Carmo Francisco, poeta e amigo dos grandes, que me fez chegar esta viagem de um outro poeta a Cacilhas...

quarta-feira, novembro 22, 2006

O Vinho do Ginjal


Um das indústrias que floresceram no Ginjal, no seu período áureo, foi o armazenamento e distribuição de vinhos, dos quais ainda existem alguns vestígios na Quinta da Arealva.
É por isso que a fotografia que ilustra este texto tem de ser considerada uma preciosidade, com uma carrinha volkswagen a fazer publicidade ao "Vinho do Ginjal", na longínqua Vila de João Belo, em Moçambique, quando este ainda fazia parte do nosso território ultramarino...
A publicidade não engana (até rima...): «Se aprecia bom vinho prefira Ginjal, é do melhor que produz Portugal.»

domingo, novembro 19, 2006

Dores do Povo Português


Este ano tem sido um ano muito proveitoso para mim, especialmente por ter ficado a conhecer algumas partes ocultas de pessoas que me eram relativamente próximas.
Percebi que somos realmente um povo dorido (e nem estou a falar dos frequentadores crónicos dos Centros de Saúde do nosso país...), que sofre muito, da maneira mais parva e estúpida...
Além das dores nas costas, das dores de cabeça e de dentes... sofrem especialmente de dor de Corno e de dor de Cotovelo...
Este "povinho dorido" consegue transformar a sua pobre vidinha numa encruzilhada, refém da inveja, da hipocrísia, do cinismo e do despeito, em relação aos outros.
Uma das frases mais secas e brilhantes, que li, sobre este tipo de gente, foi dita por José Miguel Júdice, numa entrevista ao extinto e brilhante "DNA", de Pedro Rolo Duarte, de 22 de Abril de 2005. Ele dizia assim:
«Nós gostamos de dizer mal pelas costas e bem pela frente. Nós gostamos de ser amigos de toda a gente e de não gostar de ninguém. Nós gostamos de ser manhosos e, passe a palavra, gostamos de ser merdosos. E eu não gosto disso. É um lado da alma portuguesa que me irrita profundamente.»
A mim também me irrita profundamente, José Miguel Júdice, mas temos de levar com eles...
Este texto está ilustrado com o "Segredo", uma bonita escultura do mestre Lagoa Henriques.

sábado, novembro 18, 2006

O Teatro de Romeu


O Movimento Associativo de Almada escolheu o Salão de Festas da Incrível Almadense para evocar a vida e obra de Romeu Correia.
Alexandre Castanheira foi o guia perfeito da viagem efectuada desde os seus tempos de menino no Ginjal até aos seus últimos tempos, com a utilização de textos da sua autoria e de amigos do mundo das letras.
No final o Cénico da Incrível interpretou dois quadros de uma das suas peças, para satisfação de todos os presentes.
Esta excelente interpretação foi ao encontro das palavras de Fernando Barão, que levantara a questão de os grupos de Almada não levarem aos palcos as peças de Romeu. Questão reforçada por Alexandre Castanheira e por Carlos Alberto Rosado, que lançaram o repto de 2007 ser o ano do Teatro de Romeu Correia em Almada, com a exibição de várias peças da sua autoria pelos actores e encenadores do concelho.
Esta homenagem foi ilustrada com uma exposição de fotografias, recortes de jornais, capas de livros, cartazes de peças exibidas e também de uma verdadeira peça de museu: a cópia do auto de apreensão do seu primeiro livro de contos, "Sábado Sem Sol", pela PIDE (apesar dos seus esforços só apreenderam cinco livros...) nas bibliotecas da Academia e Incrível Almadense, que ilustra este texto.
Nota: A presença dos familiares directos de Romeu (filha, neto e genro) nesta evocação merecida contrastou com a ausência de qualquer elemento em representação do Município. Não deixa de ser triste a forma como os nossos autarcas tratam a memória de Romeu, tão bajulado e utilizado politicamente em vida, pela mesma força política que agora prima pelo silêncio e pela ausência...

sexta-feira, novembro 17, 2006

Romeu Correia Homenageado em Almada


No dia em que se comemora a data do nascimento de Romeu Correia (17 de Novembro de 1917), três colectividades de Almada - Incrível Almadense, Academia Almadense e Farol -uniram-se para homenagear o almadense, que melhor soube transpor para o papel as histórias da sua terra, como romancista e dramaturgo.
Claro que a vida de Romeu não se resumiu ao mundo literário.
Foi um grande desportista, que fez parte de uma geração fantástica de atletas almadenses, donde se destacaram Francisco Bastos e António Calado, ambos campeões, recordistas nacionais e atletas internacionais. Foi um grande associativista, com uma predilecção natural para a sua Academia. Foi um democrata assumido, mesmo quando tal era proibido. E foi sobretudo um grande apaixonado pela sua terra.
A fotografia que ilustra este texto foi tirada no miradouro, onde hoje se encontra o elevador. Lugar onde o ouvi contar histórias maravilhosas sobre as suas aventuras de rapaz no Ginjal...

quinta-feira, novembro 16, 2006

Fonte da Pipa


A chuva que continua a cair de Norte a Sul, deu-me vontade de falar de um monumento do século XVII, na zona do Ginjal, construído para aproveitar uma das nascentes de água que se perdiam, misturadas com o Tejo. Estou a referir-me à Fonte da Pipa.
A Fonte da Pipa fica situada entre o Ginjal e o Olho de Boi, junto ao espaço ajardinado onde foi erguido o moderno elevador, à beira rio.
O chafariz reconstruído recentemente foi inaugurado em 1736, no reinado de D. João V.
Apesar da sua proximidade com o rio, a água tinha muita boa qualidade e além abastecer a vila de Almada, dava apoio a muitos dos navios que aportavam em Lisboa e enchia ainda o lavadouro público, na sua parte inferior.
Hoje é apenas um monumento, já sem a função de chafariz de quatro bicas...

terça-feira, novembro 14, 2006

Nevoeiro no Ginjal


Pois é, parece que o nevoeiro veio para ficar, para as bandas do Ginjal...
Dias como o de hoje, com neblina de manhã à noite, são raros. Normalmente quando se aproxima a hora do almoço, o Sol enche-se de brio e expulsa o nevoeiro para longe... Depois brilha com mais intensidade, como se gritasse vitória perante o "feitiço" cinzento...
Quem costumava aproveitar estes dias fechados era o meu amigo Fernando, quanto ainda tinha a sua ourivesaria em Cacilhas. Pegava na máquina fotográfica e saia para a rua, na direcção do Cais do Ginjal, à procura de bons motivos para disparar a sua "reflex", agradecido pelos "efeitos especiais" destes dias mais sonoros, graças às buzinadelas de aviso dos Cacilheiros - ainda sem radar- durante as travessias do Tejo...

segunda-feira, novembro 13, 2006

Da Azinhaga à Babilónia



A proximidade do Natal faz com as principais editoras apostem no lançamento de novas obras dos seus escritores mais mediáticos.
António Lobo Antunes e José Saramago não escapam a estas encomendas, que significam mais vendas e mais dinheiro (sim, nisto dos livros, também há quem ganhe bom dinheiro...) por se tratar de uma época de consumismo, em que há o bom hábito de se oferecerem prendas.
Apesar de se tratarem dos nossos escritores mais próximos da Lua, estou à vontade para dizer que ambos estão longe de serem os mais lidos (apesar do seu sucesso nas vendas) no nosso país.
Digo isto porque conheço a sua prosa difícil, mesmo para leitores experimentados, o que me leva a imaginar os "amadores" na leitura a ficarem-se pelas primeiras páginas e a espreitar o fim...
A explicação do sucesso das suas vendas? Os seus livros são uma espécie de "bibelot", que segundo consta (provavelmente nas revistas rosa frouxo...) dá algum estatuto intelectual ter na estante...
Embora ache a literatura de Lobo Antunes superior, estou mais inclinado para comprar "As Pequenas Memórias", que "Ontem não Te Vi na Babilónia", por uma razão simples, gosto bastante deste género de livros de memórias. E este tem a particularidade de que nos ajudar a conhecer um outro país, dos anos trinta, quarenta.
Pelo que tenho lido nas críticas e também nos "doces" pré-publicados, o doutor António está a caminhar para terrenos perigosos, com demasiados espelhos á sua volta. Nem mesmo o facto de colocar Pragal no mapa, me desperta curiosidade de espreitar Babilónia...

sexta-feira, novembro 10, 2006

Outra Placa Intimidatória...


Não gosto nada de placas intimidatórias e tenho algum medo do que possa vir a seguir...
Talvez sejamos mesmo proibidos de passear pelo Ginjal, porque é mais fácil fechar o passeio ribeirinho ou colocar um guarda, que "lavar a cara" (mesmo que fosse à gato...) e cuidar das casas em ruínas abandonadas.
Todos aqueles que conhecem o Ginjal sabem que as suas casas e armazéns têm a altura de apenas dois pisos (rés de chão e primeiro andar). Pela minha experiência pessoal (ainda ontem passeei pelo velho paredão do Ginjal...) noto que há exagero do Município neste acumular de placas ao longo do passeio ribeirinho.
Não pretendo branquear esta situação, cuja degradação começa a ser bastante preocupante. Mas mantenho, que este perigo de desmoronamento é relativo, e poderia ser rapidamente solucionado com os mesmo tijolos e cimento, com que construiram um muro, nos lugares em pior estado...

quinta-feira, novembro 09, 2006

Muitos Meses Depois Fez-se um Muro...


Toda a gente sabia que uma comunidade romena (composta por profissionais da mendicidade) tinha ocupado alguns dos armazéns abandonados do Ginjal...
Neste grupo de "toda a gente" encontrava-se o Município, a Junta de Freguesia, as Autoridades Policiais (PSP e Polícia Marítima), os Bombeiros, e claro, a população almadense...
Finalmente, muitos meses depois, as Autoridades abriram os olhos e resolveram por termo a esta situação degradante (como devem imaginar, as cerca de seis dezenas de emigrantes viviam sem condições mínimas de habitabilidade, já que água, luz ou saneamento só existiam em sonhos. A única companhia certa que tinham era o lixo que já por ali estava e o que trouxeram e fizeram...).
Segundo as notícias de hoje, tratou-se de uma acção conjunta entre o Município e as várias autoridades, acabando com a transfiguração do Ginjal em "vila" de emigrantes clandestinos. Os "ocupas" foram identificados e convidados a partirem para outras paragens, num espaço de vinte dias...
Claro que esta viagem anunciada pode ser apenas de alguns quilómetros (ou nem tanto...), porque barracões não faltam por ai, ao abandono... e daqui a vinte dias já ninguém se lembra de nada.
Feio, feio é o muro que foi erguido no Ginjal, a lembrar outros muros da vergonha...

terça-feira, novembro 07, 2006

Outono em Cacilhas


Esta fotografia não passa de um "postal" festivo (dia 1 de Novembro), em que as pessoas aproveitam para sair à rua, para ver ou acompanhar a procissão da Nossa Senhora do Bom Sucesso.
A presença de vendedores em Cacilhas faz com que juntem o útil ao agradável e comam uma fartura ou uma dúzia de castanhas assadas, admiradas com o cheiro a povo que invade a antiga Rua Direita e o Largo de Cacilhas neste dia.
Claro que dias não são dias... no domingo seguinte, volta tudo à pasmaceira do costume. O Largo volta a contar apenas com a meia dúzia de pessoas apressadas para apanharem o cacilheiro ou o autocarro, porque o Cais de Cacilhas volta a ser apenas um ponto de passagem...

sábado, novembro 04, 2006

Arte com Sabor em Cacilhas


O aparecimento de um novo café em Cacilhas, com um nome já de si bastante apelativo (Café com Letras), no começo de 2003, marcou o início de várias actividades culturais como: exposições, tertúlias, colóquios, apresentações de livros, debates, até se chegar às sessões animadas de "Poesia Vadia".
Embora isso faça comichão a algumas pessoas, o sucesso destas iniciativas está associado a uma senhora, cujo nome era praticamente desconhecido no panorama cultural local (Ermelinda Toscano). Ela conseguiu fazer em meia dúzia de meses o que alguns programadores culturais não fazem em anos...
Fizeram-se coisas muito bonitas naquele espaço, sem qualquer dúvida. A que considero mais brilhante foi a edição da colecção INDEX POESIS, "Uma Dúzia de Páginas de Poesia", um pequeno caderno, que marcaria a estreia poética de dezenas de autores. Esta colecção chegou ao número 47, uma coisa admirável, se pensarmos que estamos a falar num espaço de apenas dois anos.
Por razões que não interessa dissecar, o entusiamo foi arrefecendo e o "Café com Letras", acabou mesmo por fechar.
Foi bom o antigo café ser substituído por um outro café (" Sabor & Art") e não por outra coisa qualquer.
Melhor ainda, é o facto de os novos gestores do espaço terem demonstrado vontade de voltar a "explorar" a vertente cultural, tão bem sucedida durante algum tempo, por aquelas bandas.
A entrada em cena vai começar já no próximo dia 25 de Novembro, com a tão popular sessão de "Poesia Vadia".
Espero que este regresso seja um sucesso, porque Cacilhas precisa de mais portas abertas à Cultura.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Nossa Senhora do Bom Sucesso


O primeiro dia de Novembro é uma data especial em Cacilhas.
Isto acontece praticamente desde o fatídico Terramoto de 1755, quando as águas do Rio Tejo avassalaram todo o povoado, deixando atrás de si um rasto de destruição e morte. Segundo as lendas locais, o rio só se acalmou quando alguém se lembrou de ir buscar a imagem da Nossa Senhora do Bom Sucesso ao que restava da Capela e mostrá-la ao Tejo. Os sobreviventes ao verem o rio voltar ao seu nível normal sentiram que tinha acontecido algo de divino e associaram de imediato esta mudança repentina a um Milagre.
Como prova de reconhecimento pela acção apaziguadora da Santa, os cacilhenses prometeram realizar todos os anos uma procissão que percorreria as principais artérias de Cacilhas.
Apraz-nos dizer que, 251 anos depois, a tradição mantém-se. E além da habitual procissão que percorre as principais ruas da Freguesia, a Nossa Senhora do Bom Sucesso desce até à margem do Rio, para abençoar as suas águas. De seguida o Largo de Cacilhas acolhe uma celebração religiosa comemorativa.

segunda-feira, outubro 30, 2006

A Margueira e o Futuro


O "Público" de ontem publicou uma reportagem sobre as antigas áreas industriais da Margem Sul e os desafios do futuro.
Embora pense que Almada parta em vantagem em relação ao Seixal e ao Barreiro - pela sua localização privilegiada, junto ao Mar da Palha -, não acredito na onda de optimismo do Município em redor da nova "Cidade da Água" de Almada.
Nem tão pouco penso que será um projecto para 20 anos (será mais para os trinta, quarenta anos, talvez lá para 2050 exista algo de novo em Cacilhas...). Quando penso que já estamos quase em 2007 e o Metro continua a ser uma miragem no coração da Cidade, e por este andar, nem em 2010 estaremos livres desta embrulhada...
A história de 12 mil pessoas a morar e 12 mil a trabalhar, no espaço ganho ao Tejo durante a "invenção" da Lisnave, também me faz alguma confusão...
Pelo que conheço do projecto, em princípio, será um lugar de luxo e de sonho, acessível apenas à classe média alta. Isso faz com que não acredite que existam tantos "candidatos" a virem viver para a nova "Margem Sul". Quanto muito, poderão ser deslocalizados (por opção própria) do próprio concelho, perante a miragem da tal Cidade Nova...
Mas até nascer a nova "Cidade da Água" na Margueira - baptizada de Almada Nascente -, muita água vai correr pelo Tejo até ao Oceano...

sexta-feira, outubro 27, 2006

Romeu Correia Recordado nas Caldas


O cinquentenário da fundação do Conjunto Cénico Caldense foi motivo para uma série de actividades culturais, com o objectivo de recordar alguns dos melhores momentos desta colectividade artística. Uma dessas actividades foi uma exposição bio-bibliográfica, no histórico e renovado Café Central das Caldas da Rainha.
Nesta exposição encontrei uma pequena pérola: uma das vitrines prestava homenagem a Romeu Correia, o nosso grande escritor e dramaturgo de Cacilhas, com recortes da peça, o programa e também o livro “O Vagabundo das Mãos de Ouro”.
A peça foi representada nas Caldas da Rainha pelo CCC em 1968 (tinha apenas quatro anos...) e disseram-me que foi um sucesso na época...
Os anos sessenta foram os anos de ouro de Romeu como dramaturgo. As suas peças estiveram em cena um pouco por todo o lado, com dezenas de encenações, quer por grupos amadores quer por companhias profissionais. Houve inclusive, várias peças suas transmitidas na Televisão.
Nas muitas conversas que travámos, Romeu confidenciou-me, mais que uma vez, que uma das suas mágoas foi ter sido muito mais vezes representado no tempo da ditadura (com os olhos bem atentos dos censores), que em plena democracia.
Agradeço desde já a amabilidade de Natacha Narciso e da "Gazeta das Caldas", que me cederam a imagem que ilustra este "post".

quinta-feira, outubro 26, 2006

As Vedetas


Acabei esta noite da melhor maneira, assistindo a um excelente espectáculo teatral representado pelo Cénico da Incrível Almadense, nas comemorações dos 158 anos da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense.
A peça “As Vedetas” alimenta-se de um diálogo, vivo e delicioso, entre duas mulheres-actrizes com posturas diferentes, na vida e nos palcos.
O texto foi escrito por Lucien Lambert, encenado por Eugénia Conceição e interpretado por Andreia Freire (Sylvie) e Sónia Martins (Simone), de forma brilhante.
Quem assistiu a este espectáculo ficou com a sensação de ter descoberto duas excelentes actrizes - apesar de amadoras -, com capacidade e talento para agarrarem o público durante aproximadamente uma hora, sem oscilações.
As largas dezenas de pessoas que se deslocaram ao Salão de Festas da Incrível, devem ter ficado felizes por verem que algumas pessoas são capazes de fazer coisas óptimas, com um Papel, como foi o caso da Andreia e da Sónia...
Parabéns à Geninha, a encenadora e responsável pelo Cénico da Incrível Almadense, um grupo cheio de gente com arte e talento.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Cais de Cacilhas


«[...] Enquanto esperava, calmamente, pelo cacilheiro, ficou com a sensação que aquele largo que, fora nos anos oitenta o maior centro de circulação de pessoas e transportes da Europa, estava cada vez mais calmo. Tudo graças ao comboio da ponte...
Uns metros mais à frente descobriu uma cara conhecida, Pedro Sempre, outro herói das suas crónicas mundanas.
Pedro era um velho contador de histórias que passava parte dos seus dias fundeado num banco de madeira, assistindo ao cair da tarde rente ao seu Tejo.
Quem quisesse ouvir qualquer aventura do mundo só precisava de se sentar e escutar com atenção, a sua voz pausada, o melhor bilhete para uma mão cheia de viagens, extraordinárias, pelo Ocidente e Oriente. [...]
À medida que falava, o velho fazia festas ao Banzé, o seu companheiro de sempre, um cão escanzelado que lhe aquecia os pés e a alma, escondendo com o seu pelo deslavado, os buracos dos sapatos gastos, com ar de quem já dera mais que uma volta ao mundo [...]»
Algumas palavras do conto "Sonhos Cor de Água", do livro "Um Café com Sabor Diferente", da autoria de Luís Alves Milheiro, ilustradas com uma aguarela do livro "Carta de Lisboa", de Eric Sarner e Miguelanxo Prado.

segunda-feira, outubro 23, 2006

Dia Internacional das Bibliotecas Escolares


Hoje comemorou-se o Dia Internacional das Bibliotecas Escolares.
Esta comemoração lembrou-me de imediato um projecto literário que tinha delineado para as escolas do meu concelho e que, infelizmente, acabou a marcar passo logo no começo, graças à falta de interesse e apoio da Escola Cacilhas – Tejo, candidata a sede da primeira edição.
Estou a falar do “Prémio Literário Romeu Correia” subordinado à nossa História Local e destinado aos alunos do secundário.
Além de termos como grande objectivo um melhor conhecimento dos alunos sobre a história da terra onde vivem e estudam, tínhamos também em atenção a distribuição de livros sobre Almada pelas Bibliotecas Escolares do Concelho, com o apoio das Autarquias Locais (praticamente inexistentes porque não existe uma boa política de distribuição e colaboração entre a Biblioteca Municipal e as suas congéneres escolares...)
Embora saiba que há escolas e escolas, professores e professores, fiquei extremamente desiludido com este virar de costas do “Mundo Escolar” ao “Mundo Associativo”...
O que me anima é verificar, através da “blogosfera”, que existem escolas e professores que não deixam passar em branco estas datas festivas.

domingo, outubro 22, 2006

Almada Forum de Costas Voltadas para o Desporto Almadense


Uma notícia publicada no "Record" de ontem, em que assinalava a assinatura de um contrato de patrocínio assinado entre o Centro Comercial "Almada Forum" e o Benfica, deixou-me no mínimo chocado. E eu até sou benfiquista...
Deixou-me chocado por estar a par das dificuldades económicas pela qual passam algumas das principais colectividades desportivas do Concelho, como particular destaque para o Ginásio Clube do Sul e o Almada Atlético Clube, que têm batido a várias portas à procura de apoios e os resultados têm sido quase nulos.
Embora os responsáveis pelo "Almada Forum" possam e devam fazer contratos com quem quiserem, não se deviam esquecer que vieram explorar comercialmente a Margem Sul, e como tal, seria boa ideia apoiarem também o desporto deste lado, sem terem de apanhar boleia do nome "Benfica"...
Concerteza que o Ginásio Clube do Sul - a principal colectividade de Cacilhas, fundada a 17 de Maio de 1920 -, o Almada Atlético Clube e os outros clubes desportivos do concelho agradeciam.
Este texto está ilustrado pela capa do livro "Ginásio Clube do Sul - 75 Anos de Glória", da autoria dos meus queridos amigos Fernando Barão e Henrique Mota (este último infelizmente já não está entre nós), ginasistas de alma e coração e dois grandes nomes do associativismo, desporto e cultura almadense.

sexta-feira, outubro 20, 2006

O Velho Comandante


Hoje vou falar do Velho Comandante dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas, que além da sua passagem de mais de meio século pela Corporação Humanitária ribeirinha, deixou-nos um legado extremamente importante: duas obras literárias muito ricas para quem se debruça sobre a História Local Almadense.
Não tive o prazer de conhecer Eduardo Alves pessoalmente. O nosso primeiro contacto aconteceu ocasionalmente, quando vim viver para Cacilhas, já que a rua que tem o seu topónimo fica nas traseiras da minha casa, onde ainda consigo vislumbrar o Tejo, apesar da vista se ter reduzido, com a construção dos últimos anos.
O meu envolvimento associativo fez com que conhecesse a sua filha, Idalina Alves Rebelo, uma excelente poetisa e pintora da nossa terra.
Há mais de um ano a Junta de Freguesia de Cacilhas lançou o desafio aos escritores da SCALA - Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada, para que escrevessem a sua biografia.
A ideia não floresceu de imediato, porque havia apenas um escritor (Alberto Afonso) que mostrou interesse em realizar este trabalho, embora não se sentisse à vontade para escrever a obra sozinho. A sua falta de experiência fez com que me pedisse para que fosse co-autor do livro. Acabei por aceder à sua vontade.
Em boa hora o fiz, já que fiquei a conhecer um grande cacilhense, que embora não seja uma figura consensual (mais por desconhecimento da sua obra, que por outra coisa), realizou um trabalho notável como Mestre dos Estaleiros da Parry& Son, como Comandante dos Bombeiros de Cacilhas e sobretudo como Historiador.
Como estudioso da História Local do Concelho, tenho de referir novamente os seus dois livros: "Almada Terra Nossa" e "Cacilhas dos Tempos Idos". Tão diferentes e tão iguais, especialmente no amor e no rigor devotado às suas duas terras.
A propósito, devo dizer que a biografia "Eduardo Alves, Vida e Obra de um Bombeiro Exemplar", será lançada no dia 21 de Outubro, às 16.00 horas, no Auditório do Quartel dos Bombeiros Voluntários de Cacilhas e a apresentação da obra será feita pelo arqueólogo e historiador almadense, Luís Barros.

terça-feira, outubro 17, 2006

Um País Cheio de Filmes da Treta...


Como devem calcular, o Tony e o Zézé, não são os actores do filme do qual vos vou falar...
Os actores principais do outro "Filme da Treta", são os ministros da Educação e da Saúde, que apesar das contestações, um pouco por todo o lado, lá vão usando e abusando da sua qualidade de governantes, para continuarem a atirarem-nos "pazadas de areia para os olhos".
A última invenção do ministro da saúde foi o pagamento de uma diária de internamento nos hospitais públicos. Não sei o que virá a seguir...
Conseguiu alterar os sistemas de assistência da saúde na função pública, nivelando-os por baixo, como é óbvio; reduziu as comparticipações dos medicamentos, com o argumento falacioso de que íamos pagar menos, uma mentira, como todos nós sabemos; fechou maternidades e urgências nos hospitais, sem se preocupar com os habitantes das respectivas localidades; limitou horários e encerrou Centros de Saúde de uma forma discutível.
Apesar do seu discurso, estas medidas só tiveram em atenção o dinheiro, os gastos e os custos da saúde, nunca o bem estar e os direitos dos contribuintes (sim, direitos, apesar das tentativas governativas, o Direito à Saúde continua inscrito na nossa Constituição e todos os trabalhadores efectuam descontos para os vários sistemas de assistência à doença).
Na educação, a confusão não é menor: encerraram-se escolas de norte a sul, umas com razão de ser, outras nem por isso. O pior, é que só daqui a alguns anos, é que iremos saber, até que ponto, estes encerramentos contribuiram para o abandono e insucesso escolar...
O novo estatuto de carreira e a avaliação do desempenho dos professores - que tanta confusão tem gerado de norte a sul, com várias manifestações e jornadas de greve (como a de hoje e amanhã) - também está mais associado a razões economicistas que aos argumentos reformadores apresentados pela ministra.
Depois destas cenas, acho que o melhor é vermos o verdadeiro "Filme da Treta". De certeza que o Zézé e o Tony têm mais graça que os ministros da saúde e da educação...

domingo, outubro 15, 2006

O Ginjal na Literatura - VI


"Cacilhas - Memórias Soltas", da autoria de Fernando Barão é um excelente repositório da vida em Cacilhas na primeira metade do século vinte.
Neste livro o autor fala sobretudo das pessoas que foi conhecendo e que o marcaram, especialmente na juventude. Apetece-me acrescentar, que é um hino ao cidadão comum, inserido no contexto associativo.
Naturalmente o Ginjal surge em vários capítulos, pela sua importância sociocultural no Lugar de Cacilhas, mas também com alguma graça, como a "história teatral" em que Fernando Barão cantou o faduncho do Ginjal, da sua autoria...
Aproveito esta oportunidade para homenagear este extraordinário cacilhense, que, apesar da sua provecta idade, continua a ser uma das grandes referências culturais de Almada, com uma acção preponderante no Associativismo e na Literatura Local.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Os Sobreviventes


Quase ao lado do antigo restaurante "Gonçalves", encontra-se em funcionamento a última empresa metalomecânica naval do Ginjal.
Se espreitarmos para o seu interior ainda encontramos meia dúzia de operários especializados, de fato de macaco, que vão fazendo pequenas reparações e construindo cópias de peças, encomendadas pelos donos de embarcações de vários tamanhos.
Não sei até quando, estes homens irão resistir e merecer o título de últimos "sobreviventes", de uma indústria que cresceu e floresceu no Ginjal, desde a segunda metade do século XIX até ao final dos anos sessenta do século XX...

quarta-feira, outubro 11, 2006

Novos Caminhos Para o Ginjal


Durante o fim de semana descobri na Região do Oeste alguns caminhos óptimos para se fazerem caminhadas e circular de bicicleta, sem se perder de vista o mar.
Sei que não descobri nada de novo porque, por exemplo, os Concelhos de Cascais, Vila Nova de Gaia ou Espinho, possuem infra-estruturas de qualidade, para que os seus concidadãos possam passear em contacto com a natureza, sem perder de vista o Oceano.
Mesmo a nossa Costa de Caparica, apesar de ter sido esquecida durante décadas pelos vários poderes e ter crescido de uma forma desordenada, continua a ter no seu velho paredão, um dos pontos de encontro mais agradáveis do concelho, para todos aqueles que gostam de respirar o ar salgado, permitindo caminhar à beira-mar, embora com as limitações que todos conhecemos.
A grande novidade foi descobrir que alguns autarcas perceberam, finalmente, a importância de se construírem espaços de passeio e lazer, para que os seus concidadãos possam usufruir da natureza com toda a plenitude, sem a presença de veículos poluentes por perto.
Ao descobrir estas novas vias, pensei imediatamente no Ginjal, nas suas enormes potencialidades sem qualquer aproveitamento. Até fui ao encontro de uma ideia que tem pouco de original, divulgada na segunda metade do século XIX: a ligação de Cacilhas à Costa de Caparica, sem se perder de vista o Tejo e o Atlântico.
Um projecto destes poderia ser uma das soluções para o rejuvenescimento de lugares como o Ginjal, Porto Brandão e Trafaria, numa aposta clara num novo género de turismo, tendo a natureza como principal polo de atracção.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Fraude Eleitoral na Costa de Caparica


«A cidade da Costa de Caparica, durante as eleições autárquicas de 9 de Outubro, foi protagonista de um caso de fraude eleitoral. O incidente teve lugar na mesa de voto número dez da freguesia, onde os seus membros viciaram os resultados apurados, com a colocação de 56 boletins de voto de várias forças políticas, junto dos do PSD.
Esta descoberta só foi possível porque não existia qualquer acta assinada nesta mesa de voto, e segundo a Lei Eleitoral é obrigatória a realização de uma acta após o acto eleitoral, redigida pelo secretário da mesa, onde são registadas todas as operações realizadas desde a abertura até ao fecho da mesa de voto. A sua não existência anula os resultados obtidos e obriga a que se proceda a uma nova contagem votos.
No acto da recontagem verificou-se, que no somatório dos votos atribuídos ao PSD, constavam 56 das forças de oposição, colocados indevidamente por alguém da mesa, que procurou beneficiar os sociais democratas.
Perante este acontecimento grave o BE fez um requerimento de protesto, para que fosse feita uma recontagem dos votos para a Assembleia de Freguesia de Costa de Caparica, em todas as mesas da Costa. A CDU, tal como já fizera anteriormente, na Trafaria, recusou o protesto da força política de esquerda, com o argumento de não querer abrir precedentes.
O Bloco de Esquerda como tinha ficado a apenas 22 votos de eleger um representante, e tinha 15 votos misturados com os 56 sonegados, viu diminuir para apenas 8, os votos necessários para esta eleição. O seu protesto baseava-se neste e noutros casos que tinham levantado a suspeição na Costa, como o desaparecimento da acta da mesa número nove, que só apareceu três dias depois das eleições.
Intransigente na clarificação dos resultados eleitorais, o BE pondera consultar juristas para tomar uma decisão em relação ao envio, ou não, de um recurso para o Tribunal Constitucional.
O juiz responsável pelo acto eleitoral no concelho, como não podia deixar de ser, fez uma queixa crime contra os elementos da mesa, envolvidos nesta fraude.»

Nota: Em nome da verdade e pelo respeito que me merecem as pessoas de bem que visitam o "Casario do Ginjal", achei que devia publicar aqui a notícia que saiu no "Jornal de Almada" no dia 21 de Outubro de 2005, assinada por Luís Milheiro, para que tirem as suas próprias ilacções, em relação ao que por aqui tem sido comentado.
Não insulto ninguém e se atinjo a honra de algumas pessoas, só podem ser as envolvidas na fraude. Esta notícia também foi divulgada na imprensa diária e no semanário almadense "Notícias de Almada", após as eleições autarquicas. Não se trata de nenhuma invenção como algumas pessoas pretendem fazer crer.

sábado, outubro 07, 2006

Fernando Lopes-Graça em Almada


Os meses de Outubro Novembro e Dezembro foram escolhidos para homenagear Fernando Lopes Graça (17/12/1906 – 27/11/1994), um pouco por todo o lado, no ano em que se comemora o centenário do seu nascimento.
Almada não é excepção, e faz muito bem, pois Lopes Graça está fortemente ligado ao Concelho pela sua importante acção pedagógica nas principais colectividades populares de Almada.
É por isso que é uma honra para todos os almadenses, que o Auditório do “Fórum Romeu Correia”, tenha sido baptizado com o seu nome.
Lopes Graça foi um dos maiores nomes da nossa música do século XX, como intérprete, compositor e autor. Embora fosse um predestinado para o ensino, foi proibido de ensinar no ensino público, por nunca ter escondido as suas preferências políticas. Mas não desistiu da sua vocação de ensinar e criar, deixando um grande legado do tempo em que esteve à frente da Academia de Amadores de Música e também da sua passagem um pouco por todo o país, onde ajudou a organizar centenas de coros de amadores de música, ao mesmo tempo que ia escrevendo canções memoráveis, como as suas “Canções Heróicas”, que contaram com a colaboração de vários poetas como José Gomes Ferreira, Carlos Oliveira, entre outros.
Estas canções de paz e de liberdade estiveram proibidas até Abril de 1974...
Acreditamos tal como ele que:

(...)
Não há machado que corte
A raiz ao pensamento

Não há morte para o vento
Não há morte.
(...)

quinta-feira, outubro 05, 2006

Viva a República!


Hoje comemora-se mais um aniversário da Implantação da República no nosso país, pelo que é sempre agradável evocar José Elias Garcia (1830 - 1891), um Cacilhense que foi uma das principais figuras do Partido Republicano nas décadas de setenta e oitenta do século XIX. Jornalista, político e militar, o seu exemplo democrático foi uma das fontes inspiradoras dos revolucionários, que derrubaram a monarquia a 5 de Outubro de 1910.
Há ainda outro aspecto curioso que liga a nossa cidade à Revolução Republicana: no dia 4 de Outubro foi hasteada nos Paços do Concelho, a bandeira do Centro Republicano Elias Garcia, ou seja, Almada resolveu antecipar-se um dia em relação ao resto do país, na vitória republicana.
Tudo bons motivos para gritarmos: Viva a República!

quarta-feira, outubro 04, 2006

O Poder Local Ilusório - Parte Dois


Quando começamos a escrever ao sabor da pena, por vezes perdemos a objectividade. Foi o que aconteceu no meu último "post", em que usei demasiadas generalidades, sem falar em nomes.
Não tenho qualquer problema em falar dos Municípios mais individados, até por serem do conhecimento geral. De certeza que não me estava a referir a Almada, que pelo que sei goza de uma saúde financeira razoável, pelo menos para os tempos que correm. Estava a falar sim de cidades como Lisboa, Porto, Setúbal, Coimbra, Aveiro, Faro, Leiria, Santarém, Braga, entre outros concelhos mais modestos, com menos proventos e por isso mesmo, dificuldades acrescidas, graças a gestões autárquicas, que se podem e devem, considerar danosas.
Continuo a dizer, alto e a bom som, que na maior parte das Autarquias, a grande preocupação dos governantes tem sido o seu enriquecimento pessoal e não a melhoria da qualidade de vida dos seus concidadãos.
Quantas cidades cresceram de uma forma equilibrada no nosso país nos últimos trinta anos? Acredito que possam existir algumas, mas devem contar-se pelos dedos de uma mão...
Nem mesmo as cidades comunistas conseguiram resistir ao canto da sereia do "capitalismo" (como tem sido o caso de Almada...), com a construção desenfreada por tudo o que são espaços livres e com a implantação de grandes superfícies comerciais, que se assumem, cada vez mais, como "a morte anunciada" do chamado comércio local.
É importante referir que as grandes vitimas deste "desgoverno local" têm sido as pequenas autarquias, ou seja as Juntas de Freguesia. Além de receberem sempre uma "fatia do bolo" insignificante, ainda são obrigadas a participar em jogos partidários, viciados logo à partida, por possuirem uma cor política diferente da sede dos Concelhos a que pertencem.
Em relação à última parte do texto, é sabido que vamos ser nós, contribuintes locais, a pagar esta e outras crises.
Quem tiver dúvidas, só tem de esperar meia dúzia de meses...

segunda-feira, outubro 02, 2006

O Poder Local Ilusório


Já todos percebemos que a frase feita, «O Poder Local foi a maior conquista de Abril», dita com orgulho pela generalidade dos presidentes de Câmara do nosso país, não passa disso mesmo.
Vou mesmo mais longe, trinta anos depois, podemos dizer (salvo raras excepções), que os autarcas têm sido os grandes "carrascos" desta grande conquista de Abril.
Na maior parte das Autarquias a grande preocupação dos governantes locais tem sido o enriquecimento pessoal, através da criação de redes de interesses económicos e partidários, que se têm transformado numa espécie de "polvo", cujos tentáculos conseguem chegar a todo o lado. São essas mesmas redes que têm ajudado estes senhores a perpetuarem-se no poder, com a agravante de se tornarem, ano após ano, cada vez mais autoritários, centralistas, despesistas... e sobretudo, autistas.
O resultado está à vista: ninguém sabe onde começa e acaba a corrupção nas Câmaras, com dezenas de casos graves de iregularidades e ilicitudes, de Norte a Sul. Quando olhamos para os lugares onde vivemos, descobrimos que a construção desenfreada transformou-os em lugares feios e desiquilibrados, com uma vitória clara do cimento (os autarcas querem é receitas, seja das licenças de construção, da contribuição autárquica, do saneamento ou da distribuição das águas) em relação ao verde, castanho e azul.
Mesmo assim, a maior parte das Autarquias encontram-se endividada, algumas próximas da falência técnica.
É por isso que o Estado quer por um travão a este "despesismo", para não lhe chamar outra coisa.
O sr. Ruas, da Associação de Municípios e companheiros, insatisfeitos com a aparente retirada de "uma teta da vaca", fazem ameaças veladas ao Governo, falando no desinvestimento local nas escolas, centros de saúde, policiamento, bombeiros.
Este senhor vai estar hoje com o Presidente da República.
Claro que o Palácio de Belém não é o Vaticano, das suas chaminés não sai fumo branco ou de outra cor qualquer.
Os senhores autarcas vão ter mesmo de se habituar a viver com menos dinheiro...
O que me preocupa, é que mais uma vez, vamos ser nós a ter de pagar a crise.
É só esperarmos algum tempo, para ver até onde vai chegar a habilidade destes senhores (e senhoras claro...), para nos sacarem mais uns cobres, aqui e ali...

sábado, setembro 30, 2006

Almada a Terra e as Gentes


O Concurso "Almada a Terra e as Gentes" completou em 2006 a viagem fotográfica pelas onze freguesias do Concelho, com a visita à bonita vila da Trafaria.
Foi inaugurada ontem, na Oficina de Cultura de Almada a exposição do Concurso, com os melhores trabalhos apresentados a concurso, nas duas modalidades (cor e preto e branco).
Esta iniciativa desenvolvida pela SCALA - Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada (uma colectividade cultural de Cacilhas), entre 1997 e 2006 contou, ao longo das suas dez edições, com a participação de 264 fotógrafos, que apresentaram 1.506 fotografias, quase todas de inegável beleza.
A sua 1ª Edição teve lugar em 1997 e foi sobre Cacilhas...
Como devem calcular, o Ginjal foi um dos espaços de inspiração dos muitos fotógrafos que se associaram a esta iniciativa singular, provavelmente única no país.
Se gosta de fotografia, não deixe de visitar a Oficina de Cultura, dará o seu tempo por bem empregue...

quarta-feira, setembro 27, 2006

Um Jornal de Cacilhas


No livro “Júlio César Machado – Estórias e paparocas” de Vítor Wladimiro Ferreira, a propósito da figura de Manuel Lourenço Roussado (Lisboa 1823 - Liverpool 1909) pode ler-se o seguinte: «Roussado era já, foi sempre, para a vida de rapaz, Manuel Roussado; no trato oficial foi sempre Manuel Lourenço Roussado, desde 1852 em que foi empregado da Secretaria da Procuradoria-geral da Coroa, até 1870, em que principiou a ser Barão de Roussado. Era a alegria em pessoa. Faceto, bem disposto, nédio, pimpão, armando bem o soneto, deleitando-se com o epigrama. Esse homem resistiu comigo muito tempo à desmoralização do século, mas não à da bolsa e, por isso empreendemos, além desse jornal (O Folhetim) várias empresas literárias de que o tempo com a sua ingratidão apagou hoje a memória. Tivemos por exemplo, com Eduardo Tavares e Nicolau de Brito um jornal em Cacilhas (O Almadense).»
Texto de José do Carmo Francisco
Nota: O jornal "O Almadense" é o título com mais história de Almada, já que teve oito séries (a última saiu em 1994, embora só com meia dúzia de números). Foi publicado pela primeira vez em 1855, em Cacilhas. Este artigo é ilustrado pela primeira página do nº 1, com a curiosidade de ser um «Semanário Literário e Recreativo», e tinha como redactores Nicolau de Brito e Eduardo Tavares, referidos no texto de José do Carmo Francisco.
Numa altura, em que Almada não possui um jornal de referência, é importante relembrar a história do jornalismo almadense, povoada de títulos e bons jornalistas.

domingo, setembro 24, 2006

As Burricadas de Cacilhas


As Burricadas voltaram hoje a Cacilhas, numa festa organizada pelos Escuteiros Locais, com o objectivo de reviver alguns quadros da história da Freguesia.
Ainda que sem o encanto de outrora, foram disponibilizados meia dúzia de jumentos, que foram o encanto de muitas crianças, menos familiarizadas com estes animais, que de burro têm quase nada.
Desde o final do século XIX até ao princípio dos anos trinta do século XX, as "burricadas" eram um dos grandes atractivos dos turistas que visitavam a Margem Sul, maioritariamente da Capital. Os lisboetas aproveitavam o facto de o comércio estar aberto ao domingo em Cacilhas (nessa época a quinta feira era o dia de descanso dos cacilhenses), para se deliciarem com o passeio de barco pelo Tejo, o almoço de marisco ou peixe, nas tascas e restaurantes ribeirinhas, e, finalmente, para ajudar a digestão, o célebre passeio de burro pelas redondezas...

sábado, setembro 23, 2006

As Matinés Dançantes do Ginjal


Aquele que foi um dos grandes restaurantes de referência de Cacilhas, a "Floresta do Ginjal", mudou de ramo, há já alguns anos.
Pouco tempo depois de ter fechado as portas como casa de pasto, alguns empresários resolveram utilizar o espaço vago como sala de espectáculos musicais, apresentando bandas de música alternativa.
Era comum cruzarmo-nos nas imediações do Ginjal com gente que primava pela diferença, essencialmente pela sua forma peculiar de vestir e pentear. Ao passarmos pela "Floresta" éramos obrigados a escutar sons metálicos que aconselhavam as gaivotas a voar para outras freguesias.
Hoje a música continua, mas é bastante diferente...
O som que sai das janelas é mais calmo e tenta reviver os bailes e as músicas mais apropriadas para se dançar aos pares, dos anos cinquenta e sessenta.
Pelas suas portas entram homens e mulheres de meia idade, à procura de muitas coisas, com um destaque especial, para o combate à solidão.
Uns querem companhia para dançar e namorar, se houver tempo...
Outros pretendem ir mais longe. Procuram um companheiro ou companheira, para partilharem o resto das suas vidas, encurtadas pela força vertiginosa do tempo.
Ao ouvir um tango, lembrei-me que, por falta de tempo - sempre o tempo... -, nunca aprendi a dançar convenientemente este bailado argentino, sensual e fatalista...

sexta-feira, setembro 22, 2006

A Semana da Hipocrisia


O Dia Europeu sem Carros comemora-se no nosso país há sete anos.
Embora não tenha a certeza, penso que o Município de Almada é um dos pioneiros desta iniciativa, à qual tem aderido sempre.
Embora seja de louvar a participação do Concelho na Semana Europeia da Mobilidade, é uma pena, que em sete anos, não exista qualquer indicador de mudança no trânsito e no próprio ordenamento de Almada. Os carros continuam a encher a cidade e a ocupar os passeios, dificultando a passagem dos peões e dos deficientes que se fazem transportar de cadeiras de rodas, obrigando-os a circular nas estradas, porque é a única maneira de contornar os obstáculos de quatro rodas. As tão badaladas ciclovias contam-se pelos dedos e existem em lugares afastados da cidade. o Metro continua em “banho-maria” e a ser uma incógnita, pelo menos no centro da cidade. Os transportes públicos não melhoraram nada, em alguns casos a oferta até piorou...
Ou seja, esta comemoração não passa de mais uma “Semana de Hipocrisia”, onde o trabalho realizado pelas Autarquias não passa de uma brincadeira, sem qualquer efeito prático. É uma pena...
É a Política à Portuguesa, no seu melhor.

terça-feira, setembro 19, 2006

A Praia da Margueira


No livro «Ao fim da memória» de Fernanda de Castro (Edição Círculo de Leitores) há uma curiosa referência à praia da Margueira. Assim: «Também me lembro da casa da minha bisavó, em Cacilhas, isto é, lembro-me de uma casa onde havia sempre muita gente, onde não me obrigavam a beber café com leite, onde ninguém me ralhava nem me punha de castigo. O resto, os pormenores, o tempo se encarregou de mos revelar; á medida que íamos crescendo, os meus irmãos e eu. Era uma casa pombalina, cor-de-rosa. Nem pequena nem enorme, tinha janelas de sacada com grades pintadas de verde e muitos vasos de sardinheiras nas varandas. A casa de jantar e a sala, ambas muito grandes, tinham pinturas a fresco nas paredes, cenas de caça na primeira, anjinhos, instrumentos musicais e grinaldas de flores na segunda. Os quartos, excepto o da minha bisavó e o da tia Emiliana, eram alcovas com portas de vidrinhos que davam para a sala e para a casa de jantar. O sótão, enorme, tinha um delicioso cheiro a pó e a bafio. Por uma grande escada de pedra chegávamos aos aposentos da tia Emiliana que se compunham de sala, quarto de dormir, quarto de vestir e lavagens. O quarto de dormir tinha uma janela que dava para o Tejo, podendo ver, quando estava deitada, o vaivém das fragatas no rio. No pátio lajeado da cozinha havia outra escada de pedra toda enredada numa trepadeira que dava umas flores esverdeadas chamadas «martírios».
A quinta que me parecia muito grande era, na realidade, pequena e bastante mal tratada por falta de água e por já não haver, nessa altura, hortelão nem jardineiro. Ainda assim tinha algumas árvores de fruto, pereiras e macieiras, alguns pés de uva moscatel, uma enorme amoreira e duas figueiras que davam uns figos pequenos mas muito doces. E havia ainda o mirante, a praia da Margueira e o poço onde – dizia a cozinheira Guilhermina – viviam lagartos e lacraus.
(texto de José do Carmo Francisco
e óleo de Alfredo Keil)

Nota: Existiam duas Praias da Margueira, a Nova e a Velha. A Nova fica mais ou menos no local onde hoje se encontra o Quartel dos Bombeiros de Cacilhas, a Velha, no começo da Avenida 25 de Abril. A fisionomia local era completamente diferente, como devem calcular, ainda sem as Avenidas e sem a Lisnave, que acabaria por conquistar bastante terreno ao Tejo.

segunda-feira, setembro 18, 2006

O Ginjal na Literatura V


"Memórias do Ginjal"

"Memórias do Ginjal" acaba por ser o aspecto mais visivel do projecto "Ginjalma", desenvolvido desde 1994 pelo Centro de Arqueologia de Almada, com o objectivo de caracterizar o espaço do Cais de Ginjal, em Cacilhas, nos campos histórico, antropológico e social.

Esta obra editada em 2000 pelo Centro de Arqueologia de Almada e coordenada por Elizabete Gonçalves é bastante importante para o Concelho, uma vez que retrata muito bem toda aquela zona ribeirinha, graças ao testemunho de vários cacilhenses com ligações afectivas e profissionais ao Ginjal.

Podemos ainda acrescentar, que este livro está estruturado de uma forma bastante apelativa e é uma mais valia para o Património Local.

sábado, setembro 16, 2006

A Luminosidade do Ginjal


Lisboa é conhecida como a Cidade Branca, porque a luz solar entra em todas as suas colinas sem pedir licença, em qualquer estação do ano.
O Ginjal, graças à sua situação geográfica privilegiada, também é um Cais "Branco", com uma luminosidade muito própria, capaz de nos "iluminar" o ano inteiro.
Ás vezes achamos graça a alguns comentários de forasteiros, que deixam escapar com um sorriso, que não sabem o que fizemos para ter este país, este clima e estas paisagens tão especiais.
Normalmente não sabemos o que responder. Outras vezes inventamos...
Foi o que eu fiz, quando Ingrid me disse qualquer coisa parecida, num português com pronúncia do Norte da Europa. Disse-lhe que tinhamos andado por aí, a descobrir mundo, e o sujeito a quem costumamos chamar Deus, em vez de nos cobrir de ouro, achou por bem, dar-nos um país dourado...

quarta-feira, setembro 13, 2006

Uma Cidade em Trespasse


Apesar da Autarquia de Almada andar há meia dúzia de anos, a acenar com alguns projectos megalómanos, para a Quinta do Almaraz e para a Margueira, descubro uma cidade, que "morre" um pouco, todos os dias.
Assusta-me bastante o que se está a passar com o comércio em Almada.
Só em três vias de Cacilhas - Rua Cândido dos Reis, Rua D. Sancho I e Avenida 25 de Abril -, encontrei vinte e uma casas comerciais fechadas, ou em vias disso, com avisos informativos de venda ou trespasse.
Se continuasse a contagem pelo centro da cidade, sei que este número ultrapassava a centena.
O começo dasta crise começou com a inauguração do Almada Fórum", uma grande superfície comercial, capaz de "secar" tudo à sua volta, graças à sua excelente oferta.
Os responsáveis do Município, cujo discurso "propagandista" surge sempre cheio de palavras bonitas, como a solidariedade, a igualdade e a justiça social, esquecem-se, cada vez mais, de as colocar em prática...
Quem diria que o "Comunismo" ia realizar uma união de facto com o "Capitalismo", tão às claras...
Infelizmente, não vi, nem vejo, uma única medida da Câmara de Almada, que tenha como objectivo a protecção ou o desenvolvimento do comércio local.
É por isso que as ruas estão cada vez mais desertas... e Almada prepara-se para ser, dentro de pouco tempo, uma cidade com menos pessoas e menos vida.
Hesitei no título desta crónica, que também poderia ser a "Balada da Cidade Triste"...

segunda-feira, setembro 11, 2006

Cinco Anos Depois...


Cinco anos pode ser uma eternidade,
Ou ser apenas o dia seguinte...

Nova Iorque não voltou a ser igual,
As pessoas perderam tantas coisas...
Até a liberdade de serem quem eram.
O simples gesto, de um aceno ou sorriso,
Foi suprimido pela ditadura da segurança,
Assim como qualquer palavra circunstancial
Trocada na rua, com estranhos.

Cinco anos pode ser uma eternidade
Ou ser apenas o dia seguinte...

Podemos banalizar o que aconteceu
Fingir que as Torres Gémeas desapareceram,
Num truque qualquer de magia,
Podemos dizer que a vida continua,
Que o que já lá vai, lá vai...

Cinco anos pode ser uma eternidade
Ou ser apenas o dia seguinte...

Mas os rostos daqueles que partiram,
Sem marcar qualquer viagem,
Permanecem vivos no coração de Nova Iorque.
Sim, coração, de Nova Iorque!
O coração de qualquer cidade
São sempre os seus habitantes.


(foto de Fina e palavras de Luís MIlheiro)

sexta-feira, setembro 08, 2006

A Revolta dos Marinheiros


Há setenta anos o nosso Tejo foi palco da célebre “Revolta dos Marinheiros”, que colocou as duas margens do rio em polvorosa, pelos muitos tiros disparados e pela agitação nas águas, provocada pela fuga dos militares revoltosos. Na imagem podem ver o estado em que ficou um dos navios ocupados.
Embora o texto que se segue, seja um pouco extenso, achei que era importante saberem o que realmente aconteceu...

«A Revolta dos Marinheiros, de 8 de Setembro de 1936, foi uma das primeiras grandes agitações sociais promovidas com o apoio directo do Partido Comunista Português, através da ORA (Organização Revolucionária da Armada), a sua célula no interior da Marinha de Guerra Portuguesa, que começara a ter alguma força junto dos marinheiros, ao ponto de assustar os comandos da nossa Armada.
Esta revolta teve algumas singularidades, a maior das quais, ter sido desencadeada apenas por marinheiros e grumetes, com idades entre os dezoito e os vinte e dois anos.
As comemorações do décimo aniversário da revolução do 28 de Maio de 1926, que tiveram o ponto alto na Praça do Comércio que se encheu de gente, fruto da presença de uma grande massa de representantes dos sindicatos e trabalhadores obrigados a comparecer, transportados em camionetas fretadas pelos patrões, com a ameaça de desemprego para todos aqueles que se recusassem a participar na festa, marcariam o início da revolta.
As intimidações aos operários para engrandecerem a festa do Estado Novo também chegaram ao navio que prestava honras militares às altas individualidades do poder. A sua guarnição recebera ordens superiores para levantar os braços em frente do Cais das Colunas e soltar urras de aclamação. Mas os marinheiros fizeram ouvidos de mercador e quando passaram junto ao cais não fizeram qualquer gesto, permanecendo apenas em sentido. Essa atitude louvável fez com que o comando, e até a própria PIDE, começassem a ter alguns marinheiros debaixo de olho.
Com o começo da Guerra Civil Espanhola, o NRP Afonso de Alburquerque partiu para o país vizinho, com a missão de escalar alguns portos a sul e recolher os portugueses radicados nessas paragens que quisessem regressar a Portugal.
Quando o navio chegou a um porto ocupado pelas forças governamentais, foram dadas ordens superiores, proibindo toda a guarnição de sair para terra.
Os problemas surgiriam, dias depois, quando atracaram noutro porto, sob o domínio das tropas de Franco e foram concedidas licenças.
As praças recusaram-se a sair, como protesto pela dualidade de critérios do comando, provocando mau estar a bordo. O comandante do navio ao constatar que parte da sua guarnição simpatizava com o governo da Frente Popular Espanhola, eleito democraticamente pelo povo, fez a respectiva denúncia ao poder central.
A denúncia foi tal que mal o navio entrou no Tejo, já a PIDE estava plantada no cais, à espera dos prevaricadores. Quase toda a guarnição sofreu penas disciplinares, embora a fatia maior coubesse a 17 dos marinheiros envolvidos, que foram imediatamente expulsos da Marinha, sem direito a qualquer defesa.
A atitude injusta e prepotente da chefia da marinha semeou no seio da classe de praças um ambiente de indignação e de revolta que os levou a planearem uma acção de luta armada, que ficaria conhecida para a história como a “Revolta de Setembro”.
O grande objectivo era ocupar os três navios fundeados no Tejo e sair à barra, fora do alcance das peças de artilharia, ameaçando disparar contra a Assembleia da República, exigindo a libertação dos camaradas que ainda se encontravam presos.
A revolta acabou por ser reprimida sem dó nem piedade pelas forças afectas ao Estado, a que nem a aviação faltou.
O plano de sabotagem abortou devido à traição de alguns elementos que fingiram estar ao lado dos revoltosos.
Nessa noite de 8 de Setembro de 1936, em que estiveram envolvidas 200 praças, resultaram: 5 marinheiros mortos nos confrontos; 92 julgados em tribunal militar; 82 condenados a penas entre os 2 e os 16 anos de prisão; 34 dos quais foram inaugurar o Campo do Tarrafal (5 pereceram aos maus tratos e ao clima agreste da Ilha de Santiago).
O governo levantou logo o boato de que os marinheiros eram uns traidores que queriam entregar os navios à vizinha Espanha.
A ditadura tremeu com este acto de coragem. A prova foi a repressão que se seguiu no interior da Armada portuguesa.
Como os fascistas não se poupavam a meios para se manterem no poder, escolheram os marinheiros mais incómodos para estrearem o presidio do Tarrafal que ficou conhecido internacionalmente como o “Campo da Morte Lenta”.»
In "Almada e a Resistência Antifascista", de Luís Alves Milheiro

quarta-feira, setembro 06, 2006

Os Telhados do Ginjal


Quem olhar os Telhados do Ginjal (que talvez sejam de vidro para quem tem passado a vida a atirar pedras aos do vizinho...), pensa várias coisas: quanta incúria; quanto abandono; quanta miséria; e por aí fora...
Mas também pensa no desperdício que por ali vai, quando existe tanta gente no Concelho a fazer cultura com a "casa às costas" e em sitios exiguos.
Espaços grandes, bem situados, que poderiam ser catedrais ao serviço das Artes e dos Ofícios, de uma Almada, que ora se orgulha da sua história fluvial, ora se encolhe e vira as costas ao Rio.
Porque será que os nossos "ministros" locais, fingem esquecer, que o casamento de Cacilhas com o Tejo é coisa milenar, e que só temos a ganhar com o reforço desta união?
Talvez a sabedoria popular possa dar umas dicas:
«Não há pior cego que o que não quer ver.»
«Não há pior surdo que o que não quer ouvir.»