domingo, setembro 24, 2006

As Burricadas de Cacilhas


As Burricadas voltaram hoje a Cacilhas, numa festa organizada pelos Escuteiros Locais, com o objectivo de reviver alguns quadros da história da Freguesia.
Ainda que sem o encanto de outrora, foram disponibilizados meia dúzia de jumentos, que foram o encanto de muitas crianças, menos familiarizadas com estes animais, que de burro têm quase nada.
Desde o final do século XIX até ao princípio dos anos trinta do século XX, as "burricadas" eram um dos grandes atractivos dos turistas que visitavam a Margem Sul, maioritariamente da Capital. Os lisboetas aproveitavam o facto de o comércio estar aberto ao domingo em Cacilhas (nessa época a quinta feira era o dia de descanso dos cacilhenses), para se deliciarem com o passeio de barco pelo Tejo, o almoço de marisco ou peixe, nas tascas e restaurantes ribeirinhas, e, finalmente, para ajudar a digestão, o célebre passeio de burro pelas redondezas...

sábado, setembro 23, 2006

As Matinés Dançantes do Ginjal


Aquele que foi um dos grandes restaurantes de referência de Cacilhas, a "Floresta do Ginjal", mudou de ramo, há já alguns anos.
Pouco tempo depois de ter fechado as portas como casa de pasto, alguns empresários resolveram utilizar o espaço vago como sala de espectáculos musicais, apresentando bandas de música alternativa.
Era comum cruzarmo-nos nas imediações do Ginjal com gente que primava pela diferença, essencialmente pela sua forma peculiar de vestir e pentear. Ao passarmos pela "Floresta" éramos obrigados a escutar sons metálicos que aconselhavam as gaivotas a voar para outras freguesias.
Hoje a música continua, mas é bastante diferente...
O som que sai das janelas é mais calmo e tenta reviver os bailes e as músicas mais apropriadas para se dançar aos pares, dos anos cinquenta e sessenta.
Pelas suas portas entram homens e mulheres de meia idade, à procura de muitas coisas, com um destaque especial, para o combate à solidão.
Uns querem companhia para dançar e namorar, se houver tempo...
Outros pretendem ir mais longe. Procuram um companheiro ou companheira, para partilharem o resto das suas vidas, encurtadas pela força vertiginosa do tempo.
Ao ouvir um tango, lembrei-me que, por falta de tempo - sempre o tempo... -, nunca aprendi a dançar convenientemente este bailado argentino, sensual e fatalista...

sexta-feira, setembro 22, 2006

A Semana da Hipocrisia


O Dia Europeu sem Carros comemora-se no nosso país há sete anos.
Embora não tenha a certeza, penso que o Município de Almada é um dos pioneiros desta iniciativa, à qual tem aderido sempre.
Embora seja de louvar a participação do Concelho na Semana Europeia da Mobilidade, é uma pena, que em sete anos, não exista qualquer indicador de mudança no trânsito e no próprio ordenamento de Almada. Os carros continuam a encher a cidade e a ocupar os passeios, dificultando a passagem dos peões e dos deficientes que se fazem transportar de cadeiras de rodas, obrigando-os a circular nas estradas, porque é a única maneira de contornar os obstáculos de quatro rodas. As tão badaladas ciclovias contam-se pelos dedos e existem em lugares afastados da cidade. o Metro continua em “banho-maria” e a ser uma incógnita, pelo menos no centro da cidade. Os transportes públicos não melhoraram nada, em alguns casos a oferta até piorou...
Ou seja, esta comemoração não passa de mais uma “Semana de Hipocrisia”, onde o trabalho realizado pelas Autarquias não passa de uma brincadeira, sem qualquer efeito prático. É uma pena...
É a Política à Portuguesa, no seu melhor.

terça-feira, setembro 19, 2006

A Praia da Margueira


No livro «Ao fim da memória» de Fernanda de Castro (Edição Círculo de Leitores) há uma curiosa referência à praia da Margueira. Assim: «Também me lembro da casa da minha bisavó, em Cacilhas, isto é, lembro-me de uma casa onde havia sempre muita gente, onde não me obrigavam a beber café com leite, onde ninguém me ralhava nem me punha de castigo. O resto, os pormenores, o tempo se encarregou de mos revelar; á medida que íamos crescendo, os meus irmãos e eu. Era uma casa pombalina, cor-de-rosa. Nem pequena nem enorme, tinha janelas de sacada com grades pintadas de verde e muitos vasos de sardinheiras nas varandas. A casa de jantar e a sala, ambas muito grandes, tinham pinturas a fresco nas paredes, cenas de caça na primeira, anjinhos, instrumentos musicais e grinaldas de flores na segunda. Os quartos, excepto o da minha bisavó e o da tia Emiliana, eram alcovas com portas de vidrinhos que davam para a sala e para a casa de jantar. O sótão, enorme, tinha um delicioso cheiro a pó e a bafio. Por uma grande escada de pedra chegávamos aos aposentos da tia Emiliana que se compunham de sala, quarto de dormir, quarto de vestir e lavagens. O quarto de dormir tinha uma janela que dava para o Tejo, podendo ver, quando estava deitada, o vaivém das fragatas no rio. No pátio lajeado da cozinha havia outra escada de pedra toda enredada numa trepadeira que dava umas flores esverdeadas chamadas «martírios».
A quinta que me parecia muito grande era, na realidade, pequena e bastante mal tratada por falta de água e por já não haver, nessa altura, hortelão nem jardineiro. Ainda assim tinha algumas árvores de fruto, pereiras e macieiras, alguns pés de uva moscatel, uma enorme amoreira e duas figueiras que davam uns figos pequenos mas muito doces. E havia ainda o mirante, a praia da Margueira e o poço onde – dizia a cozinheira Guilhermina – viviam lagartos e lacraus.
(texto de José do Carmo Francisco
e óleo de Alfredo Keil)

Nota: Existiam duas Praias da Margueira, a Nova e a Velha. A Nova fica mais ou menos no local onde hoje se encontra o Quartel dos Bombeiros de Cacilhas, a Velha, no começo da Avenida 25 de Abril. A fisionomia local era completamente diferente, como devem calcular, ainda sem as Avenidas e sem a Lisnave, que acabaria por conquistar bastante terreno ao Tejo.

segunda-feira, setembro 18, 2006

O Ginjal na Literatura V


"Memórias do Ginjal"

"Memórias do Ginjal" acaba por ser o aspecto mais visivel do projecto "Ginjalma", desenvolvido desde 1994 pelo Centro de Arqueologia de Almada, com o objectivo de caracterizar o espaço do Cais de Ginjal, em Cacilhas, nos campos histórico, antropológico e social.

Esta obra editada em 2000 pelo Centro de Arqueologia de Almada e coordenada por Elizabete Gonçalves é bastante importante para o Concelho, uma vez que retrata muito bem toda aquela zona ribeirinha, graças ao testemunho de vários cacilhenses com ligações afectivas e profissionais ao Ginjal.

Podemos ainda acrescentar, que este livro está estruturado de uma forma bastante apelativa e é uma mais valia para o Património Local.

sábado, setembro 16, 2006

A Luminosidade do Ginjal


Lisboa é conhecida como a Cidade Branca, porque a luz solar entra em todas as suas colinas sem pedir licença, em qualquer estação do ano.
O Ginjal, graças à sua situação geográfica privilegiada, também é um Cais "Branco", com uma luminosidade muito própria, capaz de nos "iluminar" o ano inteiro.
Ás vezes achamos graça a alguns comentários de forasteiros, que deixam escapar com um sorriso, que não sabem o que fizemos para ter este país, este clima e estas paisagens tão especiais.
Normalmente não sabemos o que responder. Outras vezes inventamos...
Foi o que eu fiz, quando Ingrid me disse qualquer coisa parecida, num português com pronúncia do Norte da Europa. Disse-lhe que tinhamos andado por aí, a descobrir mundo, e o sujeito a quem costumamos chamar Deus, em vez de nos cobrir de ouro, achou por bem, dar-nos um país dourado...

quarta-feira, setembro 13, 2006

Uma Cidade em Trespasse


Apesar da Autarquia de Almada andar há meia dúzia de anos, a acenar com alguns projectos megalómanos, para a Quinta do Almaraz e para a Margueira, descubro uma cidade, que "morre" um pouco, todos os dias.
Assusta-me bastante o que se está a passar com o comércio em Almada.
Só em três vias de Cacilhas - Rua Cândido dos Reis, Rua D. Sancho I e Avenida 25 de Abril -, encontrei vinte e uma casas comerciais fechadas, ou em vias disso, com avisos informativos de venda ou trespasse.
Se continuasse a contagem pelo centro da cidade, sei que este número ultrapassava a centena.
O começo dasta crise começou com a inauguração do Almada Fórum", uma grande superfície comercial, capaz de "secar" tudo à sua volta, graças à sua excelente oferta.
Os responsáveis do Município, cujo discurso "propagandista" surge sempre cheio de palavras bonitas, como a solidariedade, a igualdade e a justiça social, esquecem-se, cada vez mais, de as colocar em prática...
Quem diria que o "Comunismo" ia realizar uma união de facto com o "Capitalismo", tão às claras...
Infelizmente, não vi, nem vejo, uma única medida da Câmara de Almada, que tenha como objectivo a protecção ou o desenvolvimento do comércio local.
É por isso que as ruas estão cada vez mais desertas... e Almada prepara-se para ser, dentro de pouco tempo, uma cidade com menos pessoas e menos vida.
Hesitei no título desta crónica, que também poderia ser a "Balada da Cidade Triste"...

segunda-feira, setembro 11, 2006

Cinco Anos Depois...


Cinco anos pode ser uma eternidade,
Ou ser apenas o dia seguinte...

Nova Iorque não voltou a ser igual,
As pessoas perderam tantas coisas...
Até a liberdade de serem quem eram.
O simples gesto, de um aceno ou sorriso,
Foi suprimido pela ditadura da segurança,
Assim como qualquer palavra circunstancial
Trocada na rua, com estranhos.

Cinco anos pode ser uma eternidade
Ou ser apenas o dia seguinte...

Podemos banalizar o que aconteceu
Fingir que as Torres Gémeas desapareceram,
Num truque qualquer de magia,
Podemos dizer que a vida continua,
Que o que já lá vai, lá vai...

Cinco anos pode ser uma eternidade
Ou ser apenas o dia seguinte...

Mas os rostos daqueles que partiram,
Sem marcar qualquer viagem,
Permanecem vivos no coração de Nova Iorque.
Sim, coração, de Nova Iorque!
O coração de qualquer cidade
São sempre os seus habitantes.


(foto de Fina e palavras de Luís MIlheiro)

sexta-feira, setembro 08, 2006

A Revolta dos Marinheiros


Há setenta anos o nosso Tejo foi palco da célebre “Revolta dos Marinheiros”, que colocou as duas margens do rio em polvorosa, pelos muitos tiros disparados e pela agitação nas águas, provocada pela fuga dos militares revoltosos. Na imagem podem ver o estado em que ficou um dos navios ocupados.
Embora o texto que se segue, seja um pouco extenso, achei que era importante saberem o que realmente aconteceu...

«A Revolta dos Marinheiros, de 8 de Setembro de 1936, foi uma das primeiras grandes agitações sociais promovidas com o apoio directo do Partido Comunista Português, através da ORA (Organização Revolucionária da Armada), a sua célula no interior da Marinha de Guerra Portuguesa, que começara a ter alguma força junto dos marinheiros, ao ponto de assustar os comandos da nossa Armada.
Esta revolta teve algumas singularidades, a maior das quais, ter sido desencadeada apenas por marinheiros e grumetes, com idades entre os dezoito e os vinte e dois anos.
As comemorações do décimo aniversário da revolução do 28 de Maio de 1926, que tiveram o ponto alto na Praça do Comércio que se encheu de gente, fruto da presença de uma grande massa de representantes dos sindicatos e trabalhadores obrigados a comparecer, transportados em camionetas fretadas pelos patrões, com a ameaça de desemprego para todos aqueles que se recusassem a participar na festa, marcariam o início da revolta.
As intimidações aos operários para engrandecerem a festa do Estado Novo também chegaram ao navio que prestava honras militares às altas individualidades do poder. A sua guarnição recebera ordens superiores para levantar os braços em frente do Cais das Colunas e soltar urras de aclamação. Mas os marinheiros fizeram ouvidos de mercador e quando passaram junto ao cais não fizeram qualquer gesto, permanecendo apenas em sentido. Essa atitude louvável fez com que o comando, e até a própria PIDE, começassem a ter alguns marinheiros debaixo de olho.
Com o começo da Guerra Civil Espanhola, o NRP Afonso de Alburquerque partiu para o país vizinho, com a missão de escalar alguns portos a sul e recolher os portugueses radicados nessas paragens que quisessem regressar a Portugal.
Quando o navio chegou a um porto ocupado pelas forças governamentais, foram dadas ordens superiores, proibindo toda a guarnição de sair para terra.
Os problemas surgiriam, dias depois, quando atracaram noutro porto, sob o domínio das tropas de Franco e foram concedidas licenças.
As praças recusaram-se a sair, como protesto pela dualidade de critérios do comando, provocando mau estar a bordo. O comandante do navio ao constatar que parte da sua guarnição simpatizava com o governo da Frente Popular Espanhola, eleito democraticamente pelo povo, fez a respectiva denúncia ao poder central.
A denúncia foi tal que mal o navio entrou no Tejo, já a PIDE estava plantada no cais, à espera dos prevaricadores. Quase toda a guarnição sofreu penas disciplinares, embora a fatia maior coubesse a 17 dos marinheiros envolvidos, que foram imediatamente expulsos da Marinha, sem direito a qualquer defesa.
A atitude injusta e prepotente da chefia da marinha semeou no seio da classe de praças um ambiente de indignação e de revolta que os levou a planearem uma acção de luta armada, que ficaria conhecida para a história como a “Revolta de Setembro”.
O grande objectivo era ocupar os três navios fundeados no Tejo e sair à barra, fora do alcance das peças de artilharia, ameaçando disparar contra a Assembleia da República, exigindo a libertação dos camaradas que ainda se encontravam presos.
A revolta acabou por ser reprimida sem dó nem piedade pelas forças afectas ao Estado, a que nem a aviação faltou.
O plano de sabotagem abortou devido à traição de alguns elementos que fingiram estar ao lado dos revoltosos.
Nessa noite de 8 de Setembro de 1936, em que estiveram envolvidas 200 praças, resultaram: 5 marinheiros mortos nos confrontos; 92 julgados em tribunal militar; 82 condenados a penas entre os 2 e os 16 anos de prisão; 34 dos quais foram inaugurar o Campo do Tarrafal (5 pereceram aos maus tratos e ao clima agreste da Ilha de Santiago).
O governo levantou logo o boato de que os marinheiros eram uns traidores que queriam entregar os navios à vizinha Espanha.
A ditadura tremeu com este acto de coragem. A prova foi a repressão que se seguiu no interior da Armada portuguesa.
Como os fascistas não se poupavam a meios para se manterem no poder, escolheram os marinheiros mais incómodos para estrearem o presidio do Tarrafal que ficou conhecido internacionalmente como o “Campo da Morte Lenta”.»
In "Almada e a Resistência Antifascista", de Luís Alves Milheiro

quarta-feira, setembro 06, 2006

Os Telhados do Ginjal


Quem olhar os Telhados do Ginjal (que talvez sejam de vidro para quem tem passado a vida a atirar pedras aos do vizinho...), pensa várias coisas: quanta incúria; quanto abandono; quanta miséria; e por aí fora...
Mas também pensa no desperdício que por ali vai, quando existe tanta gente no Concelho a fazer cultura com a "casa às costas" e em sitios exiguos.
Espaços grandes, bem situados, que poderiam ser catedrais ao serviço das Artes e dos Ofícios, de uma Almada, que ora se orgulha da sua história fluvial, ora se encolhe e vira as costas ao Rio.
Porque será que os nossos "ministros" locais, fingem esquecer, que o casamento de Cacilhas com o Tejo é coisa milenar, e que só temos a ganhar com o reforço desta união?
Talvez a sabedoria popular possa dar umas dicas:
«Não há pior cego que o que não quer ver.»
«Não há pior surdo que o que não quer ouvir.»

quinta-feira, agosto 31, 2006

Parar e Olhar (no Ginjal)



Este final de Agosto está ser mais quente que o costume.
Embora os dias já comecem a encurtar, é extremamente agradável passar pelo Ginjal no final da tarde, parar e olhar.
Nem sequer precisamos de nos sentar nas cadeiras amarelas de um dos restaurantes à beira do rio, podemos utilizar o paredão como banco, ou andar mais uns metros e desfrutarmos da zona ajardinada, junto ao elevador, onde os bancos de madeira, a relva e até as pedras, bem na margem do rio, convidam à evasão.
Fica o convite, não deixem de passear rente ao rio (esqueçam as placas intimidatórias que a C.M.A. colocou e olhem para as águas do Tejo, com olhos de ver)...

terça-feira, agosto 29, 2006

Era Uma Vez...


Era uma vez...
Todas as histórias que nos contavam na meninice começavam assim.
Mais tarde descobrimos, que as histórias, não têm necessariamente que começar desta maneira.
Este deve ser um dos primeiros indícios de que já crescemos um palmo.
Esta introdução deve-se em parte à leitura de um "post" colocado no blogue "Sesimbra e Ventos", onde, António Cagica Rapaz, consegue brincar com coisas sérias, de uma forma irónica claro, no seu "Jornal Passional". Porque neste país, só dá para fazermos isso...
Provavelmente, devia acrescentar ao título desta crónica: "(Era Uma Vez) Um País do Faz de Conta", tantos são os episódios, que se passam entre nós, que soam a anedota.
Há quem diga que sempre foi assim, mas eu não acredito muito nisso.
Claro que há demasiadas pessoas que querem ficar bem na fotografia, por mais amarelado que seja o seu sorriso. Há sempre quem viva "noutro país"...
O cartaz que ilustra este texto é o melhor exemplo da dualidade, que existe, e sempre existiu no nosso país.
Enquanto os jovens portugueses eram empurrados para as nossas Colónias, «para defenderem a Pátria», a Companhia Portuguesa de Navegação convidava alguns metropolitanos (quem seriam?...) a visitarem o maravilhoso Ultramar Português, dos leões e leoas...
Voltando ao "Jornal Passional", de entre os vários temas pertinentes focados pelo Cagica Rapaz, vou escolher mais dois: A Nossa (Possível) Presença Militar no Libano; e a Bandalheira do Futebol Português.
Em relação à nossa (uma forte possibilidade...) presença no Oriente, parece-me ser mais um erro grasso da nossa diplomacia. Seria mais inteligente reduzirmo-nos à nossa insignificância, sem andarmos a fazer figuras ridiculas na Europa, armados em heróis (para variar, os nossos ditos heróis, fazem a sua "guerrinha" nos seus gabinetes e não no Oriente ou aparecem para a fotografia, como o Zé Manel nos Açores...). Aliás, penso que esta, será mais uma Acção Militar suicidária (tal como a do Iraque), já que não acredito, que tanto os israelitas como o Hezbollah, cumpram o cessar fogo.
Em relação ao "Caso Mateus", é uma vergonha que os responsáveis da Liga (que agora trocam acusações entre si - Valentim e Leal) tenham conseguido transformar um simples caso de incumprimento da Lei Desportiva, naquilo que muitos oportunistas já querem transformar numa "guerra" Norte-Sul.
Eu vejo tudo isto com clareza. Segundo as "Leis do Futebol" é proibido recorrer aos tribunais civis. Quem o fizer, sabe que corre o risco de descer de divisão. Pelo que, o Gil Vicente antes de o ter feito, devia ter pensado nas consequências...
Infelizmente, neste país acontece um pouco de tudo, embora seja costume fingir, que não se passa nada...
É por isso que continuam a haver demasiadas histórias, que começam por: Era uma Vez...

sexta-feira, agosto 25, 2006

Votamos num Partido ou num Cidadão Para as Autarquias?


A substituição de Carlos Sousa da presidência da Câmara de Setúbal, por imposição partidária do PCP, partido pela qual foi eleito, é no minimo polémica.
A primeira questão que me apetece levantar é a seguinte: nós quando votamos nas Eleições Autárquicas, escolhemos um Partido ou um Cidadão?
Sei que é difícil responder com exactidão, porque existem vários tipos de eleitores na escolha dos representantes do Poder Local. Há quem vote sempre, sem hesitações, no seu partido do "coração"; há quem vote nos candidatos, sem se preocupar com as cores partidárias; e há ainda quem se divida entre ambas as coisas.
No entanto penso que o carisma popular do cidadão-candidato ultrapassa a força e o poder das forças políticas, nas Autarquias. Nas últimas eleições assistimos a vários braços de ferro, entre pessoas e partidos, com clara vantagem para as primeiras. Por exemplo, Isaltino Morais, Valentim Loureiro e Fátima Felgueiras conseguiram conquistar as Câmaras aos partidos para a qual se tinham candidatado no mandato anterior, como independentes (apesar de serem arguidos em processos na Justiça).
Claro que este caso de Setúbal carece de explicações. O comunicado do PCP é ambíguo, resalva a seriedade de Carlos Sousa mas coloca em causa a sua competência como Autarca. Ele que foi Autarca durante 26 anos e era considerado "Autarca Modelo" (não sei muito bem o que é isso...) no interior do PCP...
O que eu pergunto é, se em Almada o PCP decidisse retirar o poder à nossa presidente, Maria Emília de Sousa, nós, almadenses, tinhamos de aceitar a sua decisão? Ficar com um presidente imposto, como vai suceder em Setúbal? Provavelmente...
Para quem não saiba, Carlos Sousa foi autarca em Almada, antes de partir para Palmela e Setúbal, em serviço, pelo seu Partido.

quarta-feira, agosto 23, 2006

A Hipocrisia das Sapiências Pardas


Se há coisa que me irrita, é a hipocrisia da maior parte dos articulistas e comentadores, "especialistas" temáticos de todas as áreas da nossa sociedade.
Neste desfile semanal o "professor Martelo" surge sempre à frente, como qualquer general estrelado, seguido de perto por Pacheco Pereira e Pulido Valente (coitados, vão sempre com o passo trocado...). No pelotão segue o resto da "maralha", numa grande confusão de mãos, braços, pernas e pés pelo ar. Percebe-se facilmente que a maioria não cumpriu o serviço militar, e como tal, não sabem sequer marchar, embora sejam uns autênticos estrategas de "guerra"...
Apetece-me referir dois casos que levantaram alguma celeuma, inclusive na blogosfera, vividos nos últimos dias, pelo escritor Günter Grass e pelo treinador Jesualdo Ferreira.
O primeiro escolheu a proximidade dos 80 anos de idade, para "confessar" no seu livro de memórias (best-seller, ainda antes de ser publicado...) que com 17 anos tinha pertencido às Waffen-SS alemãs, isto durante a II Guerra Mundial. Houve logo quem tivesse a lata de comparar esta força militar especial com a PIDE.
Isso só acontece por ignorância. Quanto muito poderiam compará-lo aos nossos Comandos ou Fuzileiros.
Mas não se ficaram por aqui, também defendem que Grass "deixou de ser uma autoridade moral". Autoridade Moral? O que é isso? Será por ter vencido o Prémio Nobel da Literatura? Não creio que o nosso Saramago seja autoridade do que quer que seja... nem mesmo no seu partido.
Era bom que alguns deste senhores voltassem aos seus 17 anos. Os mais idosos são capazes de ficar surpreendidos com as fotografias em que aparecem vestidos com a farda da Mocidade Portuguesa. Talvez esbocem um sorriso amarelo e digam que se tratava de uma brincadeira de carnaval...
Outros mais jovens, aos 17 anos eram fervorosos revolucionários, seguidores do Mau e de outros ditadores. Capazes de os seguirem até ao "Fim do Mundo do Disparate"...
Presumo que estes senhores (claro que também existem algumas senhoras...) quando olham para o espelho, é só para perguntarem: «Espelho meu , espelho meu, há alguém mais esperto que eu?» Provavelmente, do lado de lá, encontram um rosto, a abanar a cabeça, com umas leves parecenças com o seu ego e com a mesma carantona do seu B.I.
Em relação a Jesualdo Ferreira, embora a história seja diferente, a hipocrisia é a mesma:
1º. Com a saída de Co Adriaanse do F.C.Porto surgem nos jornais uma série de nomes de substitutos. Jesualdo Ferreira é tido com o preferido por Pinto da Costa.
2º. Os jornalistas conseguem criar um ambiente insustentável no clube que treina, ao ponto de ser insultado e vaiado pelos adeptos do Boavista.
3º. Os mesmos senhores que insistiram no seu nome, começam agora a questionar a sua ideonidade profissional, por abandonar um clube, onde está apenas a dois meses.
3º. O treinador resolve mesmo mudar mesmo de ares, argumentando, com legitimidade, não ter condições de continuar a trabalhar no Bessa, assinando pelo F.C.Porto.
4º. A gente do costume, continua a colocar o "dinheiro" à frente do negócio, sem dizerem que Jesualdo Ferreira ao treinar o clube do "Dragão", arrisca-se a ser Campeão, o que não aconteceria no Boavista. com toda a certeza. Nem sequer se dão ao trabalho de pensarem no que fariam no lugar do treinador...
Pobre país, que se deixa condicionar por tantas "sapiências pardas", com a indiferença de uma simples viagem...
("Interior de Comboio", óleo de Arnaldo Louro de Almeida)

domingo, agosto 20, 2006

Olhar o Céu

Foto de Alfredo Cunha, in "Naquele Tempo"

Nos dias quentes é sempre agradável saborear o vento que sopra ao fim de tarde, no Ginjal.
Há sempre movimento na água, por terra ou no ar.
Assistimos ao vai e vem de Cacilheiros que partem e chegam do Cais Sodré; de autocarros que enchem o Largo Alex Dinis, antes de se fazerem à estrada, em todas as direcções; de aviões que sobrevoam o Tejo, antes aterrarem ou levantarem voo na Portela...
Há sempre coisas novas a chamarem-nos a atenção. Desta vez dei por mim a pensar, em como o simples olhar para o céu, tem mudado de significado, ao longo dos tempos...
No tempo em que as gaivotas e outras aves tinham a exclusividade dos voos, restava-nos invejar os seus movimentos e sonhar com a possibilidade, de um dia, também pudermos ter “asas”, para descobrirmos uma nova visão do mundo.
Os mais teimosos e imaginativos, tentaram ter razão antes do tempo. Foi o caso de Leonardo Da Vince, Bartolomeu de Gusmão e Júlio Verne.
Eles sabiam, que um dia íamos voar, pelo menos até à Lua... sem ser em sonhos...
Às vezes esquecemos o quanto agradável é olhar o céu. De dia temos o azul serpenteado pelo branco das nuvens, de noite temos as estrelas e o luar que furam a escuridão.

sexta-feira, agosto 18, 2006

Respira-se Poesia no Ginjal


Quando digo que se respira poesia no Ginjal, não estou a exagerar.
O Tejo é o maior responsável... mas não é o único.
Uma simples pedra, ou um pedaço de ferro ferrugento, podem ser facilmente transformados em objectos de culto. Basta esperarem pela magia do sol, da água e do nosso olhar...
As palavras surgem quase sempre do nada e dançam na incerteza de uma frase ou de uma quadra que se solta e quer ser poema.
Esta introdução tem como ponto de partida o "1º Encontro de Poetas Almadenses", agendado para 28 de Outubro, na Casa da Juventude de Cacilhas.
Este Encontro está intimamente ligado às sessões de "Poesia Vadia", que encheram o "Café com Letras", de poetas de vários mundos, unidos, unicamente, pelo amor à cor ao som das palavras.
Felizmente estes diálogos não se diluiram no espaço. Foram recolhidos na colecção "Index-Poesis", por Ermelinda Toscano - a grande animadora cultural do café -, deixando gavetas e cadernos secretos, transformando-se, de um dia para o outro, em objectos de orgulho e paixão de poetas, que afinal tinham um Nome, escrito na capa de "Uma Dúzia de Páginas de Poesia" e ainda nos "Marcadores de Leitura" e "Letras com o Café", que adoçavam a bica às sextas e sábados dos clientes do "Café com Letras".
Como costuma acontecer nestas coisas, quase expontâneas e sem grande organização, a energia acaba por se perder com o tempo...
Mas esta iniciativa foi de tal forma importante, que algumas pessoas, que acompanharam todo este processo, acharam que não se podia perder o capital poético de Cacilhas. As conversas de café foram ganhando forma e decidiu-se que era preciso fazer qualquer coisa pela poesia e pelos poetas do concelho.
Foi assim que nasceu o "1º Encontro de Poetas Almadenses".
Para que este encontro seja um êxito, é importante que as pessoas que estão de alguma maneira ligadas a todo este "Movimento", participem de uma forma activa neste Primeiro Encontro.
Não se esqueçam que: "Respira-se Poesia no Ginjal" e arredores, claro...

quarta-feira, agosto 16, 2006

O Ginjal Um Dia Destes Vem Abaixo


Ao percorrer o paredão do Ginjal descobri várias placas colocadas pelo Município, em que se avisam os visitantes, do risco de desmoronamento de várias fachadas.
Embora reconheça que algumas edificações estão realmente num estado lastimoso, não sei a que propósito foram colocadas estas placas. Acho um exagero, que pode ou não afugentar os turistas de dentro e de fora, que querem sentir o vento da Margem Esquerda ou saborear as refeições servidas nos dois restaurantes que se encontram alguns metros mais à frente.
A situação é a mesma de há, pelo menos, dez anos atrás. Pelo que acho a colocação de placas, uma medida de prevenção quase nula.
Quem visita com alguma assuidade este local, só pode sorrir...
A não ser que a Autarquia tenha tido conhecimento antecipado de algum dilúvio que venha por aí e leve todas aquelas casas em ruinas pelos ares...
Claro que a simples colocação de placas (quase sem custos nenhuns) não deixa de ser uma medida inteligente. Se acontecer alguma tragédia no Ginjal, os responsáveis pelo Município, podem dizer: «Nós bem avisámos as pessoas, mas elas não nos quiseram ouvir.»
Como todos nós sabemos, há mil e uma maneiras de sacudir a água do capote...

domingo, agosto 13, 2006

A Margem Sul do Tejo em 1906


De vez enquanto descubro autênticas "pérolas" de papel, que me fazem recuar no tempo e entender como tudo era diferente na nossa Margem Sul...
A "Ilustração Portuguesa" de 1906 fez alguns comentários curiosos sobre a Outra Banda, que merecem, no mínimo, a nossa reflexão.
«Não são das menos desagradáveis coisas da grande enseada marítima de Lisboa, essas montanhas pardas da Outra Banda, sem árvores nem casas, e de cujas vertentes a cada passo esbarrondam terras contra o Mar. De há muito, noutro país, essa margem sinistra estaria embelecida e arborizada, cortando-se nas gredas soltas, tratos de terra plana onde correr cais e fazer instalações, cintando de muralhas o resto e escalonando até ao cimo as terras altas para as encher de zig-zagues de estradas, entresachadas de residências de campo ou grandes fábricas. A cordilheira nua, com meia dúzia de casebres branquejando no amarelo ruim das gredas soltas, tem uma aparência de África maldita, que ignobiliza o panorama, ancarioca a cidade, dando aos instintos paisagistas do luso uma ideia das mais frígidas para o conceito de europeu civilizado, que ele se dá ares de merecer.»
Este retrato critico, sem assinatura, fala da pobreza paisagista da nossa Margem Sul em 1906. Cem anos depois, infelizmente, as coisas continuam pouco atractivas, como todos sabemos.
O desenho que ilustra este "post" também tem uma centena de anos e mostra o sonho da construção de uma ponte sobre o Tejo (que ainda esperou mais sessenta anos...) entre Lisboa e Cacilhas. Esta ponte tinha dois tabuleiros, um para comboios (superior) e outro para peões (inferior). Não deixa de ser curioso, o "esquecimento" do automóvel nesta travessia. Em 1906 os veiculos de quatro rodas ainda deviam circular em fase experimental...

sábado, agosto 12, 2006

O Ginjal no Olhar das Crianças


Sei que não estou a dar nenhuma novidade a ninguém, ao dizer que o Ginjal, segundo o olhar das crianças, possui qualidades, que nós adultos não conseguimos descobrir.
A nossa visão demasiado realista não se consegue afastar muito das ruinas e do abandono a que este lugar maravilhoso, cheio de potencialidades, está votado há demasiados anos.
Só o olhar simples e sonhador das crianças consegue descobrir um misto de magia e mistério, nas portas entreabertas, nas pedras caídas, nas gruas ferrugentas, nas janelas com vidros partidos e nos caminhos cheios de lixo e ervas daninhas. Todo aquele espaço é sinónimo de aventura e de descoberta para eles. Se lhes perguntarmos o que é que podem encontrar por aqueles lados, há uma palavras mágica que surge sempre: «Um tesouro».
Com a simplicidade própria da idade, dizem a verdade. O Ginjal é um "grande tesouro", que esconde outras "riquezas", um pouco por todo o lado.
O que será que os responsáveis da Autarquia e os proprietários, pensarão, da opinião das crianças?

terça-feira, agosto 08, 2006

A Ponte Salazar Festejou Quarenta Anos


No passado domingo, 6 de Agosto, a Ponte Salazar festejou o quadragésimo aniversário da sua inauguração. Não houve nenhuma festa especial. A única nota de relevo foi a transmissão de um excelente documentário na RTP1, depois do Telejornal, da autoria de Anabela Saint-Maurice.
Quando eu digo que foi a Ponte Salazar que comemorou os seus quarenta anos, e não a Ponte 25 de Abril, é porque foi isso mesmo que aconteceu. Como todos nós sabemos a primeira ponte sobre o Tejo só mudou de nome, depois da Revolução dos Cravos, em 1974.
Esta obra imponente - a obra mais arrojada do Estado Novo - teve inicio em Novembro de 1962 e foi concluída poucos dias antes da sua inauguração, em 6 de Agosto de 1966. Custou 2,5 milhões de contos, o maior investimento feito até então numa obra pública (António Oliveira Salazar, um grande unhas de fome e anti-progressista, foi o único membro do governo a votar contra a sua construção, na reunião do Conselho de Ministros que teve lugar no inicio de 1959, onde se aprovou o projecto).
Esta construção, que colocou Portugal no "Livro dos Recordes" por ter a viga contínua mais comprida do mundo (2277m), a fundação mais profunda (80m abaixo do nível do mar e as torres mais altas do mundo (190m), deu um grande safanão no progresso da Margem Sul.
O concelho de Almada cresceu de uma forma notória, dando lugar a novos espaços urbanos e ao inicio da especulação imobiliária, um pouco por todo o lado. As praias da Costa de Caparica e da Fonte da Telha passaram a ter muito mais visitantes, especialmente na época balnear.
Na reportagem foi referido que a inauguração da Ponte teve influência no "desaparecimento" do Ginjal como importante polo industrial e comercial.
Poderá ter alguma, mas não foi decisiva. O problema principal da decadência das fábricas que laboravam no Ginjal foi não se terem modernizado, deixando-se ultrapassar pelo próprio tempo, assim como os seus próprios donos.
O que é penoso verificar, é que a agonia continua, em pleno século XXI...