sábado, julho 15, 2006

O Ginjal na Literatura IV


«[...] A boina basca, a barba aparada e o fato completo, aliados à sua figura imponente, foram a sua imagem de marca durante anos a fio nas ruas de Lisboa.
Júlio fez da vida um autêntico manifesto cultural, sempre fiel a quatro coisas: o surrealismo, o anarquismo, a mulher e os filhos, que felizmente, nunca lhe faltaram pela vida fora.[...]
Júlio Verne dizia, aos sete ventos, que quase tudo o que aprendera sobre o mundo fora nas mesas de café.
Mas a faceta mais curiosa e inimaginável da sua vida, era o facto deste artista surrealista alfacinha nunca ter saído de Lisboa. Dizia, orgulhosamente, que devia ser o único lisboeta que jamais saíra da sua cidade.
Júlio nem sequer tivera a tentação de atravessar o Rio Tejo em qualquer barca para apreciar as saborosas mariscadas de Cacilhas... quanto mais envolver-se em outras viagens por esse mundo fora. [...]

In "Um Café com Sabor Diferente", de Luís Alves Milheiro, ilustrado pelo óleo de Carlos Botelho, "Lisboa e o Tejo".

quarta-feira, julho 12, 2006

O Ginjal na Literatura III


«Ao longo deste cais viaja connosco a memória dos tanoeiros, a azáfama dos pescadores, a abundância de um rio que era transparente onde o dorso dos golfinhos se confundia com as sereias e os tritões das estórias inesquecíveis de Romeu Correia.
Vista assim deste lado, a ponte é uma linha harmoniosa que se abre sobre o horizonte, desafiando o azul até lá, onde o Tejo já é oceano e a silhueta das naus ainda é possível aos semeadores do Tempo-a-Haver.
Aqui o vento é brando e perfumado de maresia.
Caminho protegida pelo perfil das casas onde é fácil reinventar os rostos que as povoaram e parecem espreitar ainda, silenciosos, nas janelas mais altas, inventando romances de viagens e sorrisos de marinheiros.
Por entre as casas nascem os pátios, ervas breves, penumbras de mistério e humidade. Das paredes, os azulejos desaparecem, lentamente.
Pequenos fragmentos de louça, cordas, bocados de madeira, aromas inconfundíveis de um tempo que nos devolve o eco de vozes laboriosas mas para sempre presentes. [...]
Ao fim da tarde Lisboa ilumina-se. A ponte é uma linha suspensa. Os pescadores recolhem os baldes, as linhas e os iscos. [...]
Como diria Pessoa: "Todo o cais, é uma saudade de pedra".»
(In "Almada - uma gaivota no vento", capítulo: Ao Longo Deste Cais.
Da autoria de Maria Rosa Colaço - texto - e Carlos Canhão - aguarelas)

domingo, julho 09, 2006

A Lapa de Cacilhas


A Lapa situava-se no Lugar de Cacilhas, próximo do cais e do antigo Largo Costa Pinto.
Ao fundo, à esquerda, ficava a entrada do Estaleiro de Hugo Parry & Son, com suas docas de reparação de navios, em frente o portão alto e estreito em ripas de madeira cortando a passagem para o "Black", que ia dar aos armazéns de descarga do carvão, à direita o altíssimo Torreão, junto a um antigo prédio que foi adquirido por José Malaquias, que o reconstruiu, adaptando no piso térreo uma "Casa de Pasto" onde os operários almoçavam diariamente [...].
A Lapa, de onde se avistava a bela Lisboa, o Rio Tejo com barcos de todas as espécies e "calados", o Largo com a velha Parceria dos barcos grandes e o embarque dos pequenos, o grande movimento de táxis, as primeiras camionetas, as barracas de frutos com seus vendedores, as carrinhas de fretes, que antes eram feitos em carroças puxados por muares, o Chafariz ali perto, o Farol ao fundo junto ao rio, contando com o vaivém dos operários, que ao som da "gonga" da doca enchiam de alegria e movimento, junto aos pregões dos vendedores ambulantes [...].
(Aguarela e texto de Anyana, in "O Scala", Inverno 2006)

sexta-feira, julho 07, 2006

Passeio Nostálgico no Ginjal com a Bola nas Mãos


A minha última crónica obriga-me a fazer uma pequena reflexão sobre a importância do futebol no nosso país e no mundo.
Gosto muito deste desporto, que além de ser extremamente fascinante, foi muito bem idealizado. Penso que esta opinião é partilhada por todos aqueles que tiveram a oportunidade de correr atrás de uma bola em qualquer campo baldio, com o objectivo de a chutar para as balizas improvisadas, atrás da vitória. Eram jogos deliciosos, disputados sem cronómetro e sem árbitros, no habitual "muda aos cinco acaba aos dez".
Tenho pena que a alienação e os muitos interesses económicos e sociais tenham retirado alguma da beleza inicial do futebol, mas esse foi o preço que tivemos que pagar pela sua modernidade e transformação em espectáculo de massas, que acabaria, naturalmente, por se revelar um excelente negócio, pelo menos para alguns.
Provavelmente esta é a parte mais negativa do futebol.
É por isso que é usada abusivamente por algumas vozes criticas (Pacheco Pereira é o porta estandarte...), incapazes de perceberem a sua importância junto de milhões de portugueses, eternos perdedores no dia a dia e cujas carências sociais e económicas os levam a viverem as vitórias dos outros como se fossem suas. Os êxitos dos clubes e da selecção são uma das poucas oportunidades que têm de sorrir e ter alguma esperança no futuro...
Isto acontece em todos os países onde os cidadãos são menorizados por quem governa. Infelizmente, esta continua a ser a prática governativa no nosso país.
Nã posso fugir a um lugar cada vez mais comum: culpar Salazar do nosso atraso e ignorância em relação aos outros países do velho continente. Mas ele é, sem sombra de dúvida, o grande culpado da falta de amor próprio e até de ambição pessoal dos nossos pais e avós, já que como estadista sempre tratou os portugueses como uns coitadinhos, como se tivessem qualquer atraso cognitivo.
Só que o nosso país já vive em democracia há mais de trinta e dois anos e as coisas não mudaram assim tanto...
É por isso que aponto o dedo a todos aqueles que já foram Poder e que nunca apostaram a sério na Educação e na Cultura dos portugueses. Pacheco Pereira também tem responsabilidades, embora normalmente fale como se nunca tivesse sido deputado ou exercesse cargos partidários com responsabilidade.
Todos nós sabemos que um povo sem cultura e educação é mais ignorante, mais maleável e mais embrutecido.
O grande culpado do nosso atraso não é o futebol, mas sim, todos aqueles que só se têm preocupado com os seus umbigos e com as suas contas bancárias desde a Revolução de Abril.
O país só vai mudar quando se tomarem medidas sérias para acabar com o populismo governamental, com o caciquismo autárquico, com o ensino oco que fabrica doutores que nem sequer sabem escrever correctamente português; com uma comunicação social subserviente e rasca - especialmente a televisão, entre outras coisas. Ou seja, quando houver gente séria e responsável a governar este lugar, cada vez menos paradiziaco, plantado à beira mar.
O futebol? Não tem qualquer culpa de ser um jogo bonito e fascinante...

quarta-feira, julho 05, 2006

A Vaca Portuguesa no Mundial



Embora goste muito de futebol, tinha pensado passar ao lado desta "febre" populista que encheu o país de bandeiras, camisas, cachecóis, bonés e canções patrioteiras.
Também não me apetecia juntar ao coro dos "intelectuais" (detesto esta palavra, não sei porquê...) que não gostam de Scolari. Embora soubesse, que para falar da Selecção, tinha de ser critico.
Na minha opinião, quem gosta de ver um bom espectáculo de futebol, está longe de ficar satisfeito com o modelo de jogo que a Selecção Portuguesa utiliza, demasiado feio e claramente abaixo da qualidade dos seus jogadores.
A culpa é do Scolari? Na minha perspectiva sim. Na perspectiva dele não. Para mim futebol é espectáculo, golos, emoção, jogadas deslumbrantes e momentos mágicos. Para ele, futebol é eficácia, ganhar de qualquer maneira. Em suma, não tem nada a ver com beleza.
O que é certo, é que se Portugal jogasse um futebol bonito, ao nível de um Figo ou de um Deco, já tinha regressado a casa...
Se analisar todas as exibições da Selecção, até chegarmos às meias finais, chego à conclusão que a nossa equipa foi preparada, psicologicamente e fisicamente, para enfrentar qualquer "guerra", e não apenas para participar no Campeonato do Mundo de Futebol. Só desta forma é que foi possível resistir a uma Holanda - durante tempo demais em superioridade numérica - e a uma Inglaterra, com um potencial futebolístico superior ao de Portugal.
Chamam "sargentão" ao Scolari, mas ele é muito mais que isso, é um verdadeiro "general" no campo de batalha verde. Consegue transmitir uma grande força interior aos seus atletas, transformando-os num verdadeiro "exército". Não sei qual é a influência do livro "Arte de Guerra" de Sun Tzu, das Senhoras do Caravaggio e de Fátima ou dos telefonemas com os seus amigos padres e psicólogos brasileiros na mentalização dos seus "guerreiros". Sei sim que a equipa demonstra ter uma força colectiva, que lhe permite enfrentar qualquer equipa do Mundo.
É por isso que estou confiante na vitória portuguesa nas meias finais e na final.
Claro que para vencermos, também confio na ajuda da bonita "vaca portuguesa", exposta no Rossio...

terça-feira, julho 04, 2006

Almada e o Teatro Capital



Entre os dias 4 e 18 de Julho decorre o 23º Festival de Almada, o maior acontecimento cultural anual da cidade, que além de a elevar a "Capital do Teatro" no começo de cada Verão, levanta sempre algumas questões pertinentes, pelo menos nas mesas dos cafés.
Embora a sua qualidade não seja colocada em causa, é pouco consensual - pelo menos entre vários agentes culturais - o preço que a Autarquia paga (são muitos milhares de euros...) para ostentar durante quinze dias o título de "Capital do Teatro". Há mesmo quem diga que a Companhia de Teatro de Almada é o nosso "clube de futebol" da Superliga...
Como se compreende, este investimento provoca um folclore político pouco habitual na cidade, porque os jornais, as rádios e as televisões atravessam o rio e vem ao espectáculo... dando voz aos políticos das "sinergias", do "desenvolvimento sustentado" e da "cidade solidária"...
Tenho alguma pena que o teatro não desça a Cacilhas, onde outrora existiu o Clube José Avelino, um clube de "finórios" que trouxe à localidade ribeirinha grandes nomes e peças do teatro português, na primeira metade do século vinte.
Recordo que o Ginjal também teve - há meia dúzia de anos - um grupo de teatro num dos barracões abandonados... quando ainda havia alguma esperança na recuperação cultural deste espaço aberto...
Para terminar esta crónica em beleza e sem polémicas, não posso deixar de aplaudir o Joaquim Benite e a sua "Trupe", quase invísivel. Eles merecem, mais que ninguém, o êxito deste festival internacional, que dura e dura há vinte e três anos, sempre com grande qualidade e diversidade na oferta de espectáculos.

domingo, julho 02, 2006

As Marchas Populares e o Tejo


Embora não seja fácil, vou tentar falar das Marchas Populares de Almada de uma forma positiva. Vou pensar unicamente nas instituições e nas pessoas de múltiplas gerações, que se apresentam em público nas Festas Sãojoaninas, cujo brilho nos olhos e ar sorridente com que se exibem, são os melhores exemplos da sua felicidade.
Vou esquecer que esta iniciativa nem sequer faz parte das tradições almadenses (foi copiada da Capital...), assim como todo o aproveitamento político que está por detrás desta festa, onde por vezes se fica com a ideia que também existe um "campeonato" entre as muitas freguesias do concelho. E pior ainda, que está vedada à maioria dos almadenses, já que o habitual circuito dos marchantes está cada vez mais reduzido e estes dançam apenas junto ao habitual palanque presidencial, um exemplo mais próximo do populismo que do comunismo...
Só quem tem a possibilidade de conseguir um lugar com boa visão ou de se deslocar ao Pavilhão dos Desportos (foi o meu caso), pode apreciar a qualidade deste espectáculo, onde os marchantes aparecem, ano após ano, mais bem vestidos e ensaiados, quase sempre inspirados em temas ligados à história de cada uma das freguesias presentes.
Para terminar, vou dar um destaque especial à presença do Sport Almada e Figueirinhas, uma colectividade popular cacilhense, que se estreou pela primeira vez neste concurso. Foi uma boa estreia, pois além de se apresentarem muito bem, utilizaram os cacilheiros e o velho Farol verde, que "piscou o olho" ao Tejo e aos pescadores, durante muitos anos, como tema principal dos seus arcos.

quinta-feira, junho 29, 2006

O Sonho Adiado



O poeta continua a viagem
Pelo cais dos sonhos...

Mesmo sem a luz do Farol,
Sem a frescura da água
Das bicas do Chafariz,
Não desiste de sonhar...

Percorre o Ginjal
De mão dada com a serenidade
Deixa-se empurrar pelo vento
Naquele carreiro da liberdade

Apesar das paredes cinzentas
Marcadas pelo abandono
Acredita num futuro azul
Inspirado na beleza do Tejo
E no encanto das suas margens

O poeta continua a viagem
Pelo cais dos sonhos...

E promete,
Nunca desistir de sonhar...

(poema de Luís Alves Milheiro, Óleo de Alfredo Keil)

quarta-feira, junho 28, 2006

Carlos Pinhão e a Gaivota com Óculos


Numa altura em que se confunde jornalismo com outra coisa qualquer, próxima do populismo, em que as notícias são misturadas com bandeiras, cachecóis e até com a Senhora de Fátima, acho importante falar de Carlos Pinhão, a minha principal referência do jornalismo português.
Comecei a ler as suas crónicas com apenas treze, catorze anos, nas páginas de "A Bola". Nessa época este jornal era considerado a "Biblia" dos jornais portugueses, pela grande qualidade jornalística e até literária.
Foi graças às suas palavras escritas - com a companhia de luxo de Vitor Santos, Alfredo Farinha, Carlos Miranda e Homero Serpa -, que dei comigo a sonhar, tornar-me um dia jornalista...
Ainda dava os primeiros passos na profissão quando nos cruzámos e pude perceber, que ele, além de excelente jornalista, era de uma generosidade e companheirismo, raros, pelo menos nesta profissão, onde se costuma ir até ao fim do mundo por causa de uma notícia, muitas vezes sem se olhar a meios...
O Carlos era também um grande contador de histórias. Escreveu vários livros, especialmente para o público mais jovem.
Um desses livros foi "Uma Gaivota com Óculos", que começa com o relato pitoresco de uma viagem a Almada, que passo a transcrever:
Era uma vez um sujeito que vivia em Lisboa e que foi convidado para ir a Almada contar histórias às crianças, Disse que sim, pegou nuns papéis em que tinha umas histórias escritas e, no Terreiro do Paço, apanhou um barco para Cacilhas.
Ia no barco a reler os papéis, a ver se decorava as histórias, quando o vento, inesperadamente, lhe arrancou as folhas das mãos. Ficou muito aflito a ver os papéis no ar.
Logo passou a aflição ao Sujeito dos Papéis, agora muito entusiasmado com aquele espectáculo imprevisto. As gaivotas devem ter pensado que se tratava de peixe, porque foram apanhar as folhas que estavam na água e deram-lhe valentes bicadas, enquanto mais acima, outras gaivotas disputavam outras folhas, puxando cada qual para seu lado. [...]

segunda-feira, junho 26, 2006

A Viagem Entre as Duas Margens do Rio


A travessia do Rio Tejo entre as margens de Lisboa e Cacilhas começou a fazer-se de um modo regular desde o século XIII.
Com a epopeia dos descobrimentos as travessias e o número de embarcações no rio aumentaram significativamente, Nessa época havia a necessidade de se abastecerem as caravelas que partiam à descoberta de novos mundos com mantimentos. Os géneros alimentares da Margem Sul, conhecidos pela sua qualidade, estavam entre os eleitos pelos navegadores.
Mas só em 1838, com o aparecimento dos barcos movidos a vapor, da "Companhia de Navegação do Tejo e Sado", é que a passagem para a outra margem, passou a ser feita com mais segurança e a preços mais convidativos, através da primeiras carreiras regulares.
Mais tarde apareceu a companhia "Vapores Lisbonenses", que alargou as carreiras até ao Seixal, Aldeia Galega, Trafaria e Cascais.
No começo do século XX, em 1903, teve inicio o primeiro serviço de transporte automóvel entre as suas margens, realizado entre Santa Apolónia e Cacilhas.
Nesta viagem de já quase dois séculos, foram surgindo novas companhias e embarcações, sempre com a preocupação de melhorar os seus serviços, diminuindo o tempo da travessia e tornando as viagens mais seguras e cómodas.
É assim que chegamos aos bonitos cacilheiros laranjinhas dos nossos dias da "Transtejo"... que continuam a levar-nos de Cacilhas a Lisboa, e são um encanto, especialmente para os turistas, quase sempre mais contemplativos que os seus passageiros diários, por encararem as travessias como um passeio pelas águas do Tejo... e não como a utilização de mais um meio de transporte.

sábado, junho 24, 2006

Ensaios Para o Ginjal


Não vou ao teatro tantas vezes como gostaria, por várias razões. A desculpa mais fácil que descubro é o facto de ter em casa duas criancinhas, de dois e oito anos, que não me permitem muitas "escapadelas" nocturnas. Embora o preço dos bilhetes, também não seja muito convidativo, pelo menos para quem tem um salário considerado normal, neste país pequenote, cada vez mais desigual.
Mas isso não invalida que goste bastante de teatro. Além de ter um grande respeito pelos actores, capazes de "viverem tantas vidas" mesmo que sejam a brincar, sinto que muitas peças funcionam como um espelho da sociedade e até das nossas próprias vidas...
É por isso que vos vou falar dos "Ensaios Para o Ginjal" de Tchekhov, aqui no "Casario", em cena no Teatro da Cornucópia.
Esta peça retrata a confusão financeira de uma família que se vê na eminência de perder o seu bem mais precioso, a quinta e o respectivo Ginjal. Desenterram-se memórias, destapa-se o passado... mas o mais engraçado é a maneira como as gerações diferentes olham para o dilema. Para os mais velhos a perda daquele espaço onde foram muito felizes, é quase o "fim do mundo". Para Ania, a personagem feminina mais jovem, a venda do Ginjal é um bilhete para uma vida nova, a possibilidade de poder plantar outro jardim mais bonito, algures por aí...
Esta peça pode facilmente ser transportada para os dramas que preenchem o dia a dia dos portugueses, que segundo as estatísticas, estão cada vez mais endividados e a mais de meio caminho de perderem os seus "Ginjais"...

sexta-feira, junho 23, 2006

Ginjal



Eram anónimos que vinham em toda a pleinitude.
Endomingados, carregados de euforias na aventura da
burricada, às vezes maltratados, mas vinham.
Aquela zona, ribeirinha, enfabulada pela característica
lusitana do pão e do vinho, trazia-os.
Era a estratégia da localização, o horizonte marítimo,
a excelência da culinária, os fadunchos, que faziam
encher as tascas.
Ginjal de outrora sem degradação, sem fábricas vazias,
sem onde comer mal...
A nossa recordação está contigo, como um aliciante local,
poiso de gente viva, que queria viver.


Fernando Barão

quarta-feira, junho 21, 2006

O Bairro Social do Olho de Boi



O Bairro Social do Olho de Boi ainda acolhe várias famílias cacilhenses, que não desistem de viver neste lugar, que além de ser extremamente aprazível, é um dos poucos espaços do Ginjal que consegue fintar a decadência e o abandono a que estão votados, graças à boa vontade dos seus habitantes.
Embora também veja o Tejo da minha janela, não acordo com o seu cheiro quase salgado, nem com o marulho das suas ondas, que rebentam na pequena praia do Olho de Boi, como estes cacilhenses...

terça-feira, junho 20, 2006

Ainda a Propósito de Romeu: "Somos um País de Analfabetos"

Por José do Carmo Francisco
O texto de Luís Milheiro sobre Romeu Correia e a sua posteridade almadense veio chamar a atenção para esta pecha dos portugueses: embora o seu Dia Nacional recorde um poeta a verdade é que o povo, enquanto tal, trata muito mal os seus poetas e escritores. Desde logo Camões morreu à fome embora muita gente encha a barriga à sua custa e dos seus versos. Mas a ignorância é transversal à sociedade. Não basta lembrar que a secretária de Santana Lopes recebeu a incumbência de agradecer um livro ao escritor Machado de Assis. Eu próprio vivi durante cinco anos muito perto do escritor Alves Redol em Vila Franca de Xira mas, mesmo entre as pessoas da «oposição», a verdade é que a figura de proa da família Mota Redol era, para essas pessoas a Dona Inocência porque tinha um colégio de meninas. O escritor Alves Redol era apenas um homem que escrevia uns livros, o primeiro dos quais é um texto antropológico chamado "Glória - Uma Aldeia do Ribatejo".
Sobre as autarquias só uma «história» absolutamente terrível: um investigador e bibliotecário morreu mas teve o cuidado de deixar toda a sua vasta e valiosa biblioteca ao Município alentejano onde tem raízes. Só que, de repente, alguém descobre que a biblioteca desse senhor, instalada num determinado lugar do concelho, iria fazer muita «sombra» à modesta biblioteca municipal dirigida por um familiar de um indivíduo ligado à Câmara local. Então, para proteger o «tacho» da miúda, toca de desfazer tudo e arranjar maneira de aquele valioso espólio ser entregue à Câmara Municipal da vila de onde esse senhor era originário mas nunca, ou quase nunca, viveu nem trabalhou. Ora aí está. Esses ao pé destes são aprendizes...

domingo, junho 18, 2006

Alfredo Keil e o Ginjal


"Lisboa Vista do Ginjal"

Óleo de Alfredo Keil (1850 - 1907) pintado nos últimos anos do século XIX, que tem a particularidade de registar a presença de algumas cacilhenses rente à praia. Provavelmente, lavadeiras...

sexta-feira, junho 16, 2006

Romeu e as Conotações do Mundo Literário...



Romeu Correia ao longo da sua carreira literária nunca se livrou do epiteto de "autodidacta", que raramente era pronunciado de uma forma positiva. Em boa verdade nunca se mostrou incomodado com isso. Ele próprio fazia questão de dizer que era um produto do povo, sem nunca renegar as suas origens humildes e que "licenciaturas", só mesmo nas "Universidades do Povo de Almada".
Ao nível local esteve sempre acima das quezílias que existiram, e ainda existem, entre os "doutores" e os "autodidactas". A sua obra colocava-o num patamar superior aos dos "ditos doutos", que se dobravam e o enchiam de adjectivos e palmadinhas nas costas, para se valorizarem, como é óbvio...
Eu, felizmente tenho passado ao lado desta questão, porque embora não seja licenciado, a minha frequência universária e o curso de jornalismo do Cenjor, não tem permitido que seja qualificado de "autodidacta". Mas sempre senti que é uma grande injustiça as pessoas serem qualificadas, enquanto escritores ou poetas, pelas suas habilitações literárias e não pelo seu valor, enquanto autores. Até porque sei que há pessoas com a 4ª classe mais cultas e com melhor português que muitos doutores (sem falar no talento...).
Esta crónica deve-se também ao desabafo do meu amigo Zé do Carmo Francisco, poeta dos bons, que também não deixa de ser olhado de lado por alguns " doutos falhos" falsamente letrados, como o fulano diplomado que disse ao poeta Nicolau Saião, que escrevera uma crónica sobre a sua qualidade poética: «Não ponha esse indivíduo tão alto... ele nem é licenciado!»
É por isso que eu digo: bem hajam os "autodidactas" deste país, que têm subido a pulso a "corda da literatura", muitas vezes agarrados com todas as partes do corpo, porque é a única forma de conseguirem resistir aos muitos empurrões traiçoeiros, dados pelos pretensos "donos" deste mundo literário - que infelizmente não são tão poucos como isso...
Encerro a "Semana de Romeu Correia" com alguma polémica, mas agradado porque este grande senhor - que tive a oportunidade de conhecer -, não vai cair no esquecimento, como parece ser vontade de quem está no poder.

quinta-feira, junho 15, 2006

Romeu Correia e o Ginjal


«Passei os primeiros vinte anos da minha vida no Cais do Ginjal, aprendi desde muito cedo a nadar no Tejo, que ainda estava habitado por muitos peixes... e havia o folclore único dos golfinhos. Estou a falar de uma época em que tanto no cais como no rio havia muita vida, uma vez que o Ginjal estava cheio de fábricas e armazéns, donde se destacavam as tanoarias e as fábricas de conserva de peixe.»
In "Gente D'Almada", Romeu Correia o Escritor e o Desportista", Luís Alves Milheiro

quarta-feira, junho 14, 2006

A Rua Romeu Correia



A "Rua Romeu Correia" fica situada na Freguesia de Cacilhas, donde é natural, mais exactamente no alto da Margueira, ou seja, próximo do campo de futebol de onze do Beira Mar de Almada.
Esta rua possui um simbolismo especial por duas razões, que passo a enumerar: por lhe ter sido atribuída em vida; e por estarmos na última fase da ditadura, sob o comando marcelista.
Esta deliberação ocorreu em 1972, por proposta de Fernando Barão, que fazia parte da Comissão Administrativa do Município como vogal.

terça-feira, junho 13, 2006

O Ginjal na Literatura II

TODAS AS HISTÓRIAS TÊM UM
PRINCÍPIO - E ESTA COMEÇA
NO CAIS DO GINJAL
Aquele cais onde morávamos, essa muralha com uma longa correnteza de prédios, dera ensejo a curiosa adivinha que se perguntava ao serão:
- Porque se parece o cais do Ginjal com um colete?
E a resposta provocava risos:
- Porque tem casas só dum lado.
Pois era: casas só de um lado... Além de algumas residências, havia as tanoarias, as fábricas de conserva, armazéns de vinhos e cereais. Entre os prédios e a rocha, que percorria as traseiras, encontravam-se as hortas, as árvores de fruto e latadas de boa uva garrafal. Viam-se igualmente capoeiras e pombais, além de outros casinhotos, que as paredes da beira-mar ocultavam da apressada observação do simples viandante do cais.[...]
In "O Tritão", de Romeu Correia

segunda-feira, junho 12, 2006

Romeu Correia Deixou-nos há Dez Anos


Romeu Correia (1917 - 1996) já nos deixou há dez anos...

Não sei como começar este pequeno texto, de homenagem à maior figura literária do concelho de Almada no século XX.
Podia falar das suas qualidades como romancista, dramaturgo e contador de histórias, mas isso já é sobejamente conhecido por todos os almadenses.
Prefiro contar-vos como nos conhecemos. No Outono de 1990 tive a felicidade de o entrevistar para o "Record" e conhecer a sua grande dimensão humana. A partir desta conversa vieram muitas outras, que deram lugar a uma amizade que permaneceu viva até ao dia 12 de Junho de 1996...
Foi ele que me abriu as portas da nossa cidade de par em par, mostrando-me o melhor da Cidade e das suas Gentes, com a sua extraordinária qualidade de contador de histórias. Devo confessar que antes de o conhecer, Almada não passava do meu "dormitório".
Se hoje também escrevo sobre Almada, devo-o, em parte, ao Romeu, pela forma feliz como "pintou" toda esta bela Margem Sul.
É por isso que, em nome da nossa amizade, não posso, nem devo deixar passar em claro, o silêncio a que foi votado pelo Poder Local.
Sei que foi alvo de muitas homenagens e honrarias em vida - é das poucas pessoas que assistiu à colocação de uma placa toponímica com o seu nome - mas isso não dá o direito a muitos dos que o usaram, inclusive como bandeira da força política que nos governa há trinta anos, de fazerem de conta que ele não existiu.
O Fórum a que deram o seu nome, continua sem qualquer sinal da sua presença. Não existe sequer uma simples placa com o seu nome e a uma pequena referência ao Homem de Letras. Porquê?
Mas não é só a Autarquia que o trata desta forma... nunca ouvi tanta gente a vulgarizar a sua personalidade e a sua obra literária.
É por isso que digo: «Não te preocupes Romeu, ainda tens meia dúzia de amigos que conseguem dar conta dos teus detractores, que em tempos que já lá vão, enchiam-te de palmadinhas nas costas...
Em relação às pessoas que estão no poder, já deviam ter percebido que ele não é eterno... a história diz-nos que há sempre uma cadeira em desiquilibrio à espera de um "bom ditador"...»